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10 Anos de Lady Gaga: Os Pilares de um Gênio

 08/04/2008 – 08/04/2018

Nenhum Símbolo Contemporâneo de Influência Sócio-Política-Cultural(1) duradoura foi construído sem alicerces resistentes. Uma Fusão de Ícones(2) erguida sob seu conhecimento empírico à Tradição da Cultura Pop(3), sua devoção à Mágica do Show Business(4) e Apreciação a História da Arte(5); em 2008, Lady Gaga nos convidou a presenciar os inesperados traços de sua prodigiosa carreira e assistir a constante superação de seu auto desafio re-inventivo. Pioneira quando aceitou sem peso o título de Artista Audiovisual(6), a cantora, compositora, pianista autodidata, diretora de arte e performer foi a primeira de sua geração a mesclar Referências de Diversos Campos (7) e inseri-las no cenário mainstream.

Símbolo Contemporâneo de Influência Sócio-Política-Cultural(1)

“I thought equality was non-negotiable”.

Desde 2008, quase que em efeito dominó, suas músicas, estilo e atitude definiram toda uma geração, suas lutas e pensamentos. Da repulsa à normatividade – que a levou a declarar publicamente sua abominação a calças jeans e substituí-las integralmente por lingeries customizadas e meias-calças rasgadas, usando a moda como plataforma política – e o ativismo, a cantora se tornou muito mais que uma potente figura pública e trendsetter, mas um verdadeiro ícone cultural.

Responsável por levar discussões sobre o público LGBTQ+ e o bullying até a Casa Branca, Gaga fez com que o milésimo #1 da história das paradas musicais fosse a primeira canção do mundo registrada com a palavra “transgender”; fundou a Born This Way Foundation, sua fundação independente anti-bullying e também foi um dos principais nomes envolvidos na luta contra a lei Don’t Ask, Don’t Tell, que proibia o ingresso de homossexuais assumidos no exército americano.

Em 2016, foi banida da China por se reunir com Dalai Lama e se tornou alvo de amor e ódio quando, abertamente, apoiou a campanha da democrata Hillary Clinton e manifestou seu luto pós-resultados eleitorais sob um caminhão, erguendo a placa “Love trumps hate” em frente ao edifício de Donald Trump, o Trump Tower, em NYC. Da memorável indagação a Barack Obama “ARE YOU LISTENING?” a sua entrevista com Julian Assange, Lady Gaga tem ampla consciência do símbolo que se tornou.

Uma Fusão de Ícones(2)

“I’m not one icon. I’m every icon”.

Suas variações estilísticas, frutos de seu poder re-inventivo, amalgamaram referências que outrora, sem a artista como aparato conectivo, seriam totalmente heterogêneas.

Muitas de suas referências variam de acordo com o estilo de suas produções, porém existem aquelas que a sustentam e formam sua base, sendo assim Lady Gaga é – de forma literal, mas não radicalmente alusiva – uma mistura da excentricidade pop, da paixão a inarredável efervescência nova-iorquina e o fascínio por fama de Andy Warhol; da imersão nos alter-egos performáticos de David Bowie; da hipnotizante performance dramática e lúdica de Kate Bush; da saturação estética de Tarantino e LaChapelle, da exploração do show business como extensão artística de Michael Jackson; da provocação midiática, tesão por polêmicas e poder de reinvenção de Madonna; do requintado e inteligente estilo de composição pop dos Pet Shop Boys; das marcantes linhas melódicas de Bruce Springsteen; da atitude imprudente rock n’roll de Billy Idol; do apelo visual de Elton John, Sun Ra e Liberace; da opulência de Donatella Versace, Boy George e do estilo teatral de Isabella Blow e Salvador Dali.

Tradição da Cultura Pop(3)

“Pop Music will never be low brow”.

A carreira de Lady Gaga – como a de inúmeros outros artistas audiovisuais da música atual – luta contra o ideal aristocrático e preconceituoso de que a verdadeira arte é, por sua vez, privada, não popular e apreciada por poucos e seletos.

Até hoje, a cultura pop – como um todo – é atingida por esse pensamento defasado, e a raiz desse problema está diretamente ligada a fatores históricos de nossa construção social. Fora isso, é interessante que ao longo da história da música pop, tenhamos observado o surgimento de estrelas efêmeras, modismos e repetições como tentativas de sucesso, e é louvável que o mesmo estilo que muitas vezes é tido como descartável, possa ser um instrumento amplo de expressão artística, podendo ser usado como meio de denúncia com alcance massivo e inigualável, ou campo de manifestação do ser espiritual/sentimental, gerando canções que se tornam históricas, sejam elas políticas, poéticas ou dançantes.

Mágica do Show Business(4)

“I’d rather die than have my fans not see me in a pair of high heels”.

Michael Jackson no hospital, após ser queimado durante um incêndio em 1984, ergueu sua luva brilhante; e é disso que se trata a arte do show business. Antes mesmo dos flashes se tornarem parte de seu cotidiano, Gaga já havia realizado que cada uma de suas aparições públicas poderiam se tornar uma poderosa extensão de sua obra.

Anteriormente, quando todas suas aparições envolviam figurinos extravagantes e atitudes curiosas, a cantora inaugurou uma forma de performance autônoma e exclusiva da cultura pop, se apropriando da mídia ao seu favor, usando o desejo dos paparazzis por um momento em que estivesse vestida e agindo “normalmente” em uma busca incessante. Afirmando que sua identidade artística não se trata de um personagem, mas de quem ela realmente é.

Apreciação a História da Arte(5)

“Pop culture was in art, now art’s in pop culture, in me”.

Antes de abandonar a renomada Tisch School Of Arts em NYC, onde cursava Artes Visuais, a norte-americana estudou a História e a Filosofia da Arte e também escreveu dissertações apreciáveis sobre artistas como Damien Hirst e Andy Warhol. Já em sua carreira, Gaga foi muito além; com The Fame (2008) trouxe a filosofia pop-art da obsessão a ícones e fama auto-proclamada, mesclada as ferramentas da new media art; em seu segundo álbum, The Fame Monster (2009), explorou os mesmos conceitos anteriores com menções à arte gótica e industrial; para Born This Way (2011), a estética visual concebida louvava a arte surrealista e sci-fi, além de incorporar temáticas religiosas e usar técnicas do canto gregoriano durante a produção da faixa Bloody Mary, onde coincidentemente faz alusão ao renascentista Michelangelo. Para ARTPOP (2013), a cantora propôs uma experiência warholiana inversa, onde mesclou num só caldeirão artistas distintos, como Bernini e Marina Abramovic.

*experiência warholiana inversa: termo concebido pela artista que exemplifica a ideia da imersão fine arts na cultura pop, o inverso de Andy Warhol, que introduziu a cultura pop na atmosfera fine arts.

Artista Audiovisual(6)

“I always have a vision – when I’m writing a song”.

Antes de entendermos os motivos pelos quais Lady Gaga é considerada uma artista audiovisual, precisamos compreender o termo Cantor-Compositor, seu predecessor conceitual: 

“O termo cantor-compositor designa os artistas que compõem e interpretam seu material, e são capazes de fazer apresentações solo, com violão acústico ou piano. As letras recebem atenção especial no trabalho desses artistas — e, de acordo com o status do autor, muitas vezes são considerados poetas —, tornando-se objeto de um processo de intensa análise.” SHUKER, Roy. Vocabulário de Música Pop. Nova Zelândia, 1998.

Além de cantora-compositora, Lady Gaga – como todas cantoras oriundas do formato de carreira criado por Kate Bush é responsável pela idealização de seus conceitos visuais, tendo total controle sob sua construção imagética, seja dirigindo seus vídeos, criando partituras corporais para suas performances ou elaborando seus figurinos e cenários.

Além disso, o título pode ser empregado à cantora por um único motivo; sua carreira é essencialmente audiovisual. Suas produções visuais exercem tanto peso quanto sua música, e ambas coexistem sem distinção ou atrito, em uma atmosfera que só existe devido a sua ampla bagagem de referências e sua capacidade de introspecção

Referências de Diversos Campos(7)

“Let the Cultural Baptism begin”.

Visualmente ou verbalmente, de forma explícita ou implícita, absorvemos nos últimos 10 anos alusões de diversos campos; do Cinema, Gaga extraiu citações a Hitchcock e suas obras Psycho, Vertigo e Rear Window, além da estética noir de “Alejandro” e da saturação ultra-americana em Telephone”, uma ode a Tarantino; da Moda, a cantora agregou vocábulos específicos e grandes estilistas e ateliers em suas letras e produções; da Cultura Geek, trouxe momentos Minecraft e Nintendo, da Religião conduziu questões dogmáticas e fez uso das alegorias bíblicas, da Literatura exaltou Rainer Maria Rilke, que a inspirou em sua filosofia artística, fora isso, ainda temos toda a gama de elementos que a nova-iorquina retirou da supracitada História da Arte.

Le monde est témoin.

Coluna idealizada e textos escritos integralmente por Matheus Gouthier, 2017-2018.