Colunas

10 anos de Lady Gaga: a rebelião criativa de ARTPOP

O ano de 2013 mal havia começado e Lady Gaga sequer imaginava o quão diferente seria aquele ano.

Ao longo de sua recuperação do trauma na bacia, a cantora se isolou dos holofotes; o cancelamento dos shows finais de sua turnê a deixaram extremamente deprimida e sem perspectiva. Durante esse tempo, Gaga apenas compunha novas músicas para seu novo álbum. Isolada até mesmo do estúdio, aquela era sua única possibilidade de criação artística no momento.

Leia mais: 10 anos de Lady Gaga: o lendário Born This Way
                           10 anos de Lady Gaga: do horror nasce a reinvenção
                           10 anos de Lady Gaga: o começo de carreira

Recuperando gradualmente, a cantora voltou a ser vista trabalhando em estúdio, até que em Julho, através de um vazamento inesperado, chegou a internet a imagem que anunciava as datas referentes ao novo álbum de Gaga, respectivamente; Lançamento do Single / Pré-Venda do Álbum / Lançamento do Álbum, acompanhado de um texto que explica sucintamente o conceito do álbum, servindo como aperitivo para as mentes criativas fantasiarem infinitas possibilidades.

“Desenvolvido pela TechHAUS, a divisão tecnológica da HAUS OF GAGA, o aplicativo por si só é um experiência musical e visual que une música, arte, moda e tecnologia em uma nova comunidade mundial interativa – “As auras”. Alterando a experiência humana com a mídia social, trazemos ARTcultura para o POP, numa expedição Warholiana inversa.

Explorando a existência de Gaga como interferência cultural, os usuários poderão compartilhar a “adrenalina da fama” enquanto constroem e compartilham seus próprios projetos, conversam entre si e assistem em tempo real em um globo virtual a explosão de ARTPOP no universo físico e virtual ao mesmo tempo durante nosso “BIG BANG”, em 11 de Novembro.

Por sua vez, o álbum ARTPOP musicalmente reflete o processo criativo de Gaga enquanto ela atravessa por entre cada artista aos quais ela colabora, marcando o trajeto de sua jornada. O resultado, uma “ira” de paixão eletrônica e fúria, definindo cada processo artístico do início ao fim, ARTPOP pode significar qualquer coisa. Mas para ela, esta é a celebração de uma obsessão. E em 10 de Novembro, ela será a anfitriã da artRave onde exibirá projetos da Haus of Gaga e das colaborações com Inez & Vinoodh, Robert Wilson, Marina Abramovic e Jeff Koons.’’

Lançado em Novembro de 2013, ARTPOP ainda é tido como o projeto mais ambicioso e visionário de toda sua carreira. Originalmente planejado como uma “experiência warholiana inversa*”, o projeto contava com grandes nomes da arte contemporânea; a artista performática Marina Abramovic, o artista e cenógrafo Robert Wilson, o casal de fotógrafos holandeses Inez & Vinoodh e o polêmico artista plástico Jeff Koons. Musicalmente falando, a intenção do álbum é descrita pela artista da seguinte forma; “Retratar minha dor, explodindo através da música eletrônica” e, para isso, Gaga recrutou diversos produtores, alguns pela primeira vez como Zedd, Madeon, David Guetta, Rick Rubin, will.i.am e o duo eletrônico israelense Infected Mushroom, além de produtores já reincidentes em sua carreira, como RedOne – creditado apenas em uma música como co-compositor – e DJ White Shadow, produtor majoritário do álbum.

“The next day another turn came and so it continued always the same,
coitus, Christ, curses, ejaculation, always the same.

One of the old women tied the daily victim into the machine,
He then was informed and went into the boudoir,
masturbating a bit in front of her vagina,
swearing, cursing and began to fuck right out.
Screams of lust and from the moment of ejaculation,
began to roar like a bull.
He walked out not even looking at the woman
and repeated this three to four times in the same day with the same.”

O trecho acima é de um áudio que foi reproduzido nas instalações criadas por Robert Wilson e Lady Gaga; expostas no Louvre em Paris, durante a primeira exposição individual do artista no museu. Obras de peso na história da arte que carregam a temática de Morte, como “Mademoiselle Caroline Riviere” de Ingres, “The Death of Marat” de Jacques-Louis David e “The Head of John the Baptist” de Andrea Solari ganharam releituras de vídeo-performance, onde a artista meditava sobre o tema em diferentes vídeos com duração de 9 horas cada. Nonstop, em apenas um take.

# The Death Of Marat

# The Flying Portrait (Criada especialmente para a exposição individual de Bob Wilson)

# O Método Abramovic praticado por Lady Gaga

O ambicioso projeto de Lady Gaga contou com três singles, dois clipes e diversos problemas quanto ao gerenciamento comercial e divulgação. A estratégia de lançamento do lead single, “Applause”, foi um tanto arriscada e gerou comparações midiáticas com o single de Katy Perry, “Roar”, lançado no mesmo dia, fato que junto a vários outros acarretou no declínio comercial do álbum e da própria cantora enquanto produto. Entre os vários motivos que provocaram o fall na carreira de Lady Gaga entre 2013 e 2014, os principais foram:

  • A troca de “Venus” por “Do What U Want (Feat R.Kelly)” para segundo single do álbum, devido ao desempenho enquanto single promocional, que mais tarde resultou em um imenso problema devido a ambiguidade da música e as acusações de pedofilia a R.Kelly, presente na faixa, e Terry Richardson, diretor do clipe (que nunca foi lançado) e acusado de estupro na época.
  • Problemas com seu até então empresário, Troy Carter, posteriormente substituído por Bobby Campbell.
  • Saturação da proposta inicial do álbum, atropelada pela pretensão de sua gravadora e empresário.
  • O lançamento de um aplicativo conjunto, superficial e inútil.

Embora ARTPOP tenha levado Lady Gaga aos corredores do Louvre, o álbum gerou uma série de consequências negativas, incluindo o quadro depressivo que a cantora apresentou durante o fim de 2013, fato que posteriormente foi revelado pela própria cantora através da rede social criada para seus fãs, o site LittleMonsters.com, e a supracitada série de problemas com seu antigo empresário.

*experiência warholiana inversa: termo concebido pela artista que exemplifica a ideia da imersão fine arts na cultura pop, o inverso de Andy Warhol, que introduziu a cultura pop na atmosfera fine arts.