Pouco mais de dois anos após a sua última passagem solo por Belo Horizonte, Emicida voltou à capital mineira no último sábado (05), com a sua nova turnê, Emicida Racional MCMV.
Após um período de reclusão marcado por questões pessoais, o rapper voltou aos palcos neste ano com uma apresentação baseada no álbum e na mixtape lançadas no segundo semestre do ano passado. Uma das paradas foi no Arena Hall que, embora não estivesse com lotação máxima, foi palco de mais uma demonstração de força e conexão entre Emicida e seu público.
Dividido em cinco atos, o espetáculo conta com a direção musical do próprio rapper, produção musical de Fejuca e coprodução de Damien Seth. No palco, o projeto costura toda a sua carreira em torno de alguns pilares importantes: a dor do luto pela partida de sua mãe; a volta ao começo, marcada pela retomada da parceria com DJ Niack; a referência aos ídolos dos Racionais MC’s e, ao mesmo tempo, o seu próprio entendimento como referência para novas gerações. Cada um dos atos é introduzido por vídeos interpretados por diferentes atores e atrizes, mas que orbitam em torno de uma mesma inquietação: a necessidade de vencer, seja como desejo individual ou como cobrança imposta de fora.
No primeiro deles, a fala acelerada de um motorista de aplicativo, incapaz de interromper a própria rotina, nos faz criar uma relação direta com a a urgência de continuar produzindo nos dias atuais, mesmo quando o corpo e a cabeça pedem pausa. Foi nesse ambiente que “Essa É Pra Você Primo” deu início ao show. A homenagem ao DJ, falecido em 2008, funcionou como uma porta de entrada para um ato que é marcado pela ausência e pela memória. A morte aparece não apenas como tema, mas como presença constante em músicas como “Ismália”, que narra diferentes histórias interrompidas, e “Hoje Cedo”, talvez um dos momentos mais solitários do bloco, marcado pela tentativa de suportar determinadas dores longe dos olhos de qualquer pessoa.
A partir daí, o ato amplia o contraste entre aquilo que se vive nas ruas e o que se mostra para o mundo. “Mesmas Cores & Mesmos Valores”, faixa que leva o título do álbum mais recente do rapper e que inaugura a sua presença no repertório, reforçou essa leitura ao confrontar experiência e aparência.
O Ato II abriu com “AmarElo”, levando esperança para onde havia angústia. Nessa hora, o público presente no Arena Hall teve o seu primeiro momento de leveza da noite ao som do célebre refrão de Belchior. “A Chapa é Quente” também fez o público cantar junto, mas o ponto alto acabou sendo “A Mema Praça”, faixa em que Emicida versava as visões que ele, Rashid e Projota tiveram da marcante apresentação dos Racionais na Virada Cultural de São Paulo, em 2007.
![Emicida durante apresentação em Belo Horizonte. [Foto: @bmaisca]](https://www.audiograma.com.br/wp-content/uploads/2026/09/emicida-racional-bh-bmaisca_01.jpg)
Ainda que a vida nos faça lidar com questões diversas de formas simultâneas, algumas acabam se sobressaindo e dominando parte das suas ações. Emicida lidou com algumas questões pessoais silenciosas e pesadas, mas a principal delas acabou sendo a passagem de sua mãe, Dona Jacira, que faleceu em julho do ano passado.
Existe, aqui, uma coincidência pessoal que tornou a experiência de presenciar este show ainda mais particular. Meses antes do rapper perder a sua mãe, eu perdi a minha. Toda a conexão com o álbum e o período vivido pelo rapper partem de um lugar parecido. Não se trata de aproximar duas experiências de luto tão distintas, mas foi impossível ignorar que, diante de um espetáculo construído também a partir dessa ausência, muito daquilo me atingiria de uma forma que vai além do show em si.
O ápice de tudo isso acaba sendo “Mãe”, faixa lançada em 2015 e que foi cantada de forma bem emocionada por todos. Enquanto o telão exibia a expressão da língua quéchua “Tupananchiskama”, que significa “até nos encontrarmos novamente”, foi impossível segurar as lágrimas.
![Emicida durante apresentação em Belo Horizonte. [Foto: @bmaisca]](https://www.audiograma.com.br/wp-content/uploads/2026/09/emicida-racional-bh-bmaisca_02-scaled.jpg)
A sintonia e a devoção do público pairava pelo ar desde o início da apresentação, e nesse momento, Emicida desceu do palco para cantar “A Ordem Natural das Coisas”, alternando os versos com sorrisos, abraços e um passeio por toda a extensão da área de segurança que separa o palco da plateia. Ainda havia tempo para “Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo)”, com direito a um trecho do clássico samba “A Amizade”, e para “Us Memo Preto Zica”, uma das melhores faixas de seu trabalho mais recente.
O show foi encerrado com o rapper recitando uma poesia que exalta a ciclicidade da vida e a nossa capacidade de se reinventar. Pensar em “começo, meio e começo” é entender que não estamos imunes a situações ruins ou imprevisíveis e que, de alguma forma, é possível recomeçar.
![Emicida durante apresentação em Belo Horizonte. [Foto: @bmaisca]](https://www.audiograma.com.br/wp-content/uploads/2026/09/emicida-racional-bh-bmaisca_03.jpg)


