Capa do Dominguinho, álbum de João Gomes, Jota.Pê e Mestrinho.
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Review: João Gomes, Jota.Pê e Mestrinho – Dominguinho

Ainda que o piseiro não seja um dos meus estilos musicais favoritos, o trabalho feito por João Gomes ao longo dos anos sempre chamou a minha atenção. Da mesma forma, Jota.Pê não fazia parte da minha lista de artistas preferidos, mas sempre olhei com bons olhos para o seu trabalho solo e para o ÀVUÁ, projeto que ele tem ao lado de Bruna Black. Já o Mestrinho eu conhecia desde 2017, quando a sua versão de “Te Faço Um Cafuné” entrou na minha cabeça e nunca mais saiu, mas não era um nome que eu ouvia com frequência.

Ver esses três nomes reunidos em um projeto atraiu a minha atenção logo de cara. Lançado em abril do ano passado, Dominguinho precisou de poucas músicas para que fosse catapultado ao posto de trilha sonora das minhas manhãs ao longo de 2025. Gravado no Sítio Histórico de Olinda, o álbum respira Nordeste de forma orgânica e profundamente viva, celebrando a leveza dos domingos, a poesia do cotidiano e a força da cultura.

Com 12 faixas, o registro costura com delicadeza e criatividade alguns sucessos dos artistas, a inédita “Flor” – composta por Mestrinho especialmente para o projeto, além de releituras de canções conhecidas do cancioneiro popular, como a já clássica “Pontes Indestrutíveis”, da banda Charlie Brown Jr., que ganha uma versão bem interessante na obra.

João Gomes, Jota.Pê e Mestrinho.
Jota.Pê, João Gomes e Mestrinho na gravação do Dominguinho, em Olinda. [Foto: Reprodução/YouTube]
Dito isso, é a química entre os três artistas que se mostra como o ponto alto do Dominguinho. João Gomes entrega um carisma vocal difícil de replicar. Sua voz grave, usada de maneira muito mais consciente e equilibrada, nunca atropela as canções ou os parceiros; pelo contrário, serve como sustentação para o restante da obra. Mestrinho traz o embalo instrumental e emocional que transforma cada faixa em algo acolhedor. Já Jota.Pê talvez seja a peça mais surpreendente e bonita dessa engrenagem: sua sensibilidade herdada da MPB adiciona camadas doces, sofisticadas e melódicas que impedem o disco de cair em qualquer previsibilidade. O encontro dos timbres, sotaques e formas diferentes de interpretar cria uma dinâmica quase que única, onde ninguém disputa protagonismo. Existe sintonia, não competição.

A produção, assinada pelo trio ao lado de Daniel Mendes, merece destaque especial. Os arranjos acústicos, a sanfona, os violões e a percussão precisa criam uma atmosfera extremamente imersiva e muito disso se deve as colaborações de Vanutti (Violão de Aço) e Gilú Amaral (Percussão), que deram um suporte de luxo ao trio. Existe um cuidado evidente para que tudo soe orgânico, quase palpável. É um álbum que se sente no corpo. E talvez esteja aí uma de suas maiores qualidades: Dominguinho é um entendimento de que o forró, o baião e o xote não precisam ser atualizados por meio de excessos eletrônicos ou intervenções agressivas para parecerem contemporâneos. A modernidade do disco nasce da sensibilidade estética, da interpretação e da honestidade musical. Ao mesmo tempo, é aquele trabalho que homenageia o passado sem parecer datado.

Todo esse clima reflete diretamente na experiência da audição. Dominguinho possui uma fluidez impressionante. Músicas como “Arriadin por tu”, “Flor de flamboyant”, “Some ou me assume” e “Lenda” passeiam por romances, desilusões amorosas e pequenas histórias afetivas sem transformar a melancolia em peso. Há serenidade em praticamente todas as faixas, resultando em um clima gostoso de fim de tarde. É aconchegante e contemplativo, como observar um belo pôr do sol.

Por tudo isso, Dominguinho pode ser visto como uma celebração à música brasileira, feita sem qualquer cinismo. Um disco que olha para a regionalidade como potência criativa e emocional e não como tendência de mercado. É um trabalho carregado de carinho, memória e personalidade. Não sem motivo, logo caiu nas graças do público e se tornou um dos melhores álbuns nacionais de 2025. Facilmente, é um dos projetos de forró mais bem construídos dos últimos anos.

Capa do Dominguinho, álbum de João Gomes, Jota.Pê e Mestrinho.

João Gomes, Jota.Pê e Mestrinho – Dominguinho

Lançamento: 18 de abril de 2025
Gravadora: Believe Music
Gênero: Forró
Produção: Daniel Mendes, João Gomes, Jota.Pê e Mestrinho

Faixas:
01. Lembrei de Nós
02. Beija Flor
03. Arriadin por Tu
04. Flor
05. Flor de Flamboyant
06. Mala e Cuia
07. Até Mais Ver
08. Some ou Me Assume
09. Mete um Block Nele / Ela Tem
10. Lenda
11. Meu Bem
12. Pontes Indestrutíveis