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Review: Lady Gaga – Chromatica

Logo de início, ao apertar o play no sexto álbum de estúdio de Lady Gaga, há uma surpresa: um álbum com interludes, algo que nunca ocorreu antes nos trabalhos de Gaga. “Chromatica I”, “Chromatica II” e “Chromatica III” foram produzidas por Morgan Kibby (White Sea) e são transições instrumentais intencionadas a criar uma diegese sonora para o projeto, o situando como uma experiência musical quase cinematográfica.

A explosão eletrônica que interessa sua legião de fãs se inicia em “Alice”, uma eletrônica épica que dá tom a pegada house que se estende por todo álbum. Enquanto a faixa seguinte, o lead single “Stupid Love”, traz rapidamente cores oitentistas ao disco, que logo desaparecem e deixam emergir novamente as referências noventistas presentes na pesquisa sonora feita do projeto.

Logo nas primeiras faixas, a descontração de Lady Gaga enquanto compositora chama atenção; é prazerosa e as letras do álbum vingam a diversão quase inexistente no complexo e pessoal Joanne, onde Bloodpop – o produtor de Chromatica – estagiou co-produzindo ao lado de Mark Ronson.

A atual música de trabalho do disco, “Rain On Me”, é onde Tchami mais brilha: o produtor francês de future-house que integra a equipe de Gaga para o álbum embalou, na parceria com Ariana Grande, o seu irreverente estilo tropical dance. E então, antes do primeiro ato se encerrar com a faixa “Fun Tonight”, eis a autobiográfica “Free Woman”, um house que parecia mais consistente em sua versão demo vazada na internet. Entretanto, sua versão final – com mais pads, reverb e produção adicional de Axwell – deu a música o brilho clubber responsável por fazer do projeto uma unidade.

O ensemble sombrio de “Chromatica II” abre portas para a segunda metade do disco, inaugurada pela catchy e acentuada “911”, com produção adicional de Madeon – que participou da expedição warholiana inversa de Lady Gaga em 2013, produzindo “Mary Jane Holland” e “Gypsy”. Com tom soturno, o segundo ato do álbum chama atenção também pelas vigorosas “Plastic Doll”, “Replay” e a radiante faixa de disco house “Enigma”, origem do título de sua residência em Las Vegas e concebida inicialmente como title-track do projeto em sua fase de pré-produção, ainda quando Gaga trabalhava em novas possibilidades visuais com Eli Russell. Já a parceria com BLACKPINK, “Sour Candy”, perde destaque por sua curta duração e tom genérico quando comparada a outras faixas, embora seja uma das grandes apostas comerciais do álbum.

Com “Chromatica III” o álbum traça o seu desfecho: a interlude deságua em “Sine From Above” – parceria com Elton John e co-escrita por Ryan Tedder – que, apesar da força exercida por tais nomes de peso, não integra os grandes momentos do álbum. A penúltima amostra do projeto, a doce “1000 Doves”, ocupa a cota de faixa romântica, praxe nos álbuns da cantora norte-americana.

Chromatica se encerra com uma carta de amor a pista de dança e a selvageria da vida: “Babylon” é um house à la vogue, um clássico instantâneo cuja estrutura remonta os dias de glória do gênero, com backing vocals que evocam a energia funk de KC & The Sunshine Band e um vibrante pós-refrão envolto a um saxophone oitentista reminiscente a “Maneater” do duo Halls & Oates.

Lady Gaga e seus produtores mergulharam de cabeça em um gênero, não menosprezaram os mínimos detalhes e entregaram uma unidade sonora. Não há faixas de enchimento em Chromatica; até mesmo aquelas que pouco se destacam, são peças essenciais para o quebra-cabeça da atmosfera do disco. A minuciosa pesquisa liderada por Bloodpop para o design sonoro do álbum, fez de Chromatica o trabalho mais polido e uniforme de Lady Gaga desde Born This Way, sua definitiva ode ao synthpop. E ainda em diálogo com seus projetos anteriores, Chromatica de longe não é sanguíneo ou intenso como seu nêmesis ARTPOP, contudo, o disco oferece uma uniformidade que nunca poderia existir na “explosão de fúria em EDM” lançada em 2013.

Entretanto, o álbum não gabarita quanto aos visuais. Seu plano estético – que ficou a cargo de Travis Brothers, Bryan Rivera e Isha Dipika Walia – possui uma diegese bem planejada e com referências ao mestre do gótico sci-fi, H.R.Giger, porém se apropria de conceitos imagéticos datados que beiram a saturação e foram explorados anteriormente por outros artistas. Algo incomum para Lady Gaga, que desde seu surgimento é a maior trendsetter da música pop.

Gaga e sua equipe entregaram um ótimo álbum noventista, que estará no hall dos grandes revivals ao lado de Confessions on a Dance Floor, da Madonna; e Random Access Memories, do duo Daft Punk. E mesmo no timing errado, diante o caótico cenário de uma pandemia e longe das pistas de dança para qual foi feito, Chromatica já é histórico por nascer nostálgico, entoando sons que remetem a uma realidade que não nos pertence mais.

Lady Gaga – Chromatica

Lançamento: 29 de Maio de 2020
Gravadora: Interscope / Universal Music
Gênero: Dance/Pop
Produção: Lady Gaga, Bloodpop, Morgan Kibby, Burns, Tchami, Max Martin, Axel Hedfors, Justin Tranter, Johannes Klahr, Benjamin Rice, Jkash, Madeon, Skrillex, Khlar, LIOHN, Ely Rise, Nija, RAMI, Ryan Tedder, Sebastian Ingrosso, Benjamin Rice, Ryan Tedder, Sebastian Ingrosso, Vincent Pontare, Salem Al Fakir.

Faixas:
01. Chromatica I
02. Alice
03. Stupid Love
04. Rain on Me (feat. Ariana Grande)
05. Free Woman
06. Fun Tonight
07. Chromatica II
08. 911
09. Plastic Doll
10. Sour Candy (feat. Blackpink)
11. Enigma
12. Replay
13. Chromatica III
14. Sine from Above (feat. Elton John)
15. 1000 Doves
16. Babylon

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