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Review: BROCKHAMPTON – GINGER

Quando escrevi há alguns meses sobre ARIZONA BABY do Kevin Abstract, eu apontei a tentativa do cantor em alcançar um público mais abrangente, uma vez que esse foi o seu trabalho mais polido. Essa afirmação pode ser mantida com GINGER, novo álbum do coletivo em que Kevin é um dos integrantes, o BROCKHAMPTON. Esse é o quinto LP lançado pelo grupo, e todos foram feitos em um intervalo de dois anos, confirmando o status criativo que cerca a banda.

Com essa incessante frequência de lançamentos, o BROCKHAMPTON se torna especial por sempre tentar inovar e  evoluir aspectos de sua obra. Em GINGER, isso continua; ele se afasta de iridescence, último registro lançado. No álbum de 2018, a aposta foi em uma sonoridade caótica, sufocante; havia excesso de sintetizadores, samples e beats que faziam dele um dos melhores e mais curiosos discos de rap do ano.

Em GINGER, todos esses elementos foram reduzidos; há uma atmosfera mais amigável (pelo menos pra quem não conhece a boyband), onde as batidas se destacam menos e dão lugar a instrumentais mais pacíficos, com ausência de “sujeira” nas melodias; são os casos da primeira e última faixa, “NO HALO” e “VICTOR ROBERTS”. Um aspecto interessante sobre a música de encerramento é a estreia de mais um rapper no coletivo, que consequentemente empresta o seu nome à canção: Victor Roberts.

O Brockhampton e seus vários colaboradores (Créditos: Matt Salacuse/NME)

O BROCKHAMPTON conservou nesse disco aquilo que conquistou grande parte dos seus fãs: composições que continuam abordando diversas temáticas. Uma das principais, assim como em iridescence, tem a ver com a fama repentina que o coletivo conquistou ao longo dos últimos dois anos. A amizade com Shia LaBeouf foi uma das inspirações para GINGER; o ator também sofreu com essa aclamação súbita em sua carreira, e isso ajuda a entender porque eles falam tanto sobre essa popularidade nas letras. Nessa perspectiva, destaque para “BOY BYE”, que além de ótimos versos que dissertam sobre, tem uma das melhores linhas melódicas do álbum.

“ST. PERCY” exibe a já conhecida capacidade de Abstract em alternar seu estilo vocal; além dele, bearface se sobressai nesse ponto, enquanto o grupo discorre sobre a dureza de seu passado. Da mesma forma, se evidencia a boa produção com o belíssimo sample de “Only God Knows” do D-Flexx. A eficácia em variar os sons ao mesmo tempo em que é mantida uma estrutura musical interessante é notória, como no caso de “IF YOU PRAY RIGHT”.

A segunda metade se inicia com “DEARLY DEPARTED”, e é incrível. Ela é a mais emocional e delicada; o grupo finalmente fala de forma clara sobre a expulsão de Ameer Vann, após as acusações referentes a abuso sexual e emocional. É possível sentir o desespero em meio aos gritos de Joba no refrão, e a tristeza de Kevin com a situação (“Qual é o ponto de ter um melhor amigo se você acaba perdendo ele?”). As rimas de Dom McLennon no final da música não apenas deixam ela com uma carga ainda maior de comoção, mas sintetizam a evolução de todos da banda nesse sentido, com fluidez e capacidade de soltá-las de acordo com cada beat. Isso se confirma também em “I BEEN BORN AGAIN”.

A crítica negativa em relação ao álbum vai pra sequência “GINGER”, “BIG BOY” e “LOVE ME FOR LIFE”. Elas mudam completamente o ritmo do disco; mais do que isso, são cansativas e fogem um pouco da coesão que o trabalho apresenta até a oitava faixa. Passa-se a sensação de que elas estão aqui muito mais por serem mais leves do que por fazerem parte de algum contexto no registro, além de não apresentarem tantas novidades; em alguns momentos, há bastante semelhança com a trilogia SATURATION (2017). Entretanto, há alguns pontos que podem agradar, como as rimas de Merlyn Wood na penúltima canção.

De um modo geral, a impressão que fica com GINGER é que o BROCKHAMPTON ainda tem coisas a melhorar ao mesmo tempo em que eles terão ferramentas que sempre vão despertar a atenção do ouvinte. Há também a certeza de que o coletivo finalmente vai conseguir alcançar um público não tão ligado ao hip-hop; isso de forma alguma é algo negativo, pelo fato da boyband já ter aparentado trilhar um caminho rumo ao pop. De qualquer modo, esse reconhecimento é merecido. Esse não é o melhor álbum do BROCKHAMPTON; entretanto, é um satisfatório cartão de visitas para fãs recém-chegados, capaz de conquistar com seus instantes mais brilhantes.

BROCKHAMPTON – GINGER

Lançamento: 23 de Agosto de 2019
Gravadora: Question Everything/RCA
Gênero: Rap
Produção: Robert Ontenient, Jabari Manwa & Romil Hemnani

Faixas:
01. NO HALO
02. SUGAR
03. BOY BYE
04. HEAVEN BELONGS TO YOU
05. ST. PERCY
06. IF YOU PRAY RIGHT
07. DEARLY DEPARTED
08. I BEEN BORN AGAIN
09. GINGER
10. BIG BOY
11. LOVE ME FOR LIFE
12. VICTOR ROBERTS

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