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Review: Kevin Abstract – ARIZONA BABY

Kevin Abstract ganhou notoriedade nos últimos dois anos por ser o membro-fundador e um dos principais nomes do coletivo de rap BROCKHAMPTON. Por outro lado, Kevin já possui uma carreira de meia década como artista solo, e recentemente lançou o seu terceiro trabalho, chamado ARIZONA BABY. O álbum é um diário de lembranças, traumas, inseguranças e reflexões de Abstract não apenas sobre seu passado, mas também sobre sua convivência atual com a fama que foi proporcionada graças ao sucesso alcançado com a boyband.

Uma das diferenças fundamentais dessa pra outras obras de Abstract é a sua aproximação com uma sonoridade mais pop, com potencial pra alcançar o mainstream. Durante o álbum, é possível verificar arranjos mais limpos do que os encontrados no seu último disco, American Boyfriend: A Suburban Love Story, apesar de ARIZONA BABY também possuir momentos mais experimentais. Para a produção, Kevin convidou Jack Antonoff, que hoje é um dos maiores nomes do pop nesse sentido, já que ele colaborou em trabalhos como Melodrama (Lorde), MASSEDUCTION (St. Vincent) e 1989 (Taylor Swift).

Caminhando entre o R&B, hip-hop e o bedroom pop, Kevin convida o ouvinte ao seu mundo. O álbum inicia com as enérgicas “BIG WHEELS” e “JOYRIDE”; há beats mais carregados que se juntam com o saxofone, uma abordagem arriscada e bastante semelhante com o que encontramos no BROCKHAMPTON. “GEORGIA” desacelera o ritmo, e possui um refrão com versos que te pegam facilmente (“I got Georgia on my mind, ain’t nobody left behind/It’s just me, my team, my weed, my baby’s Audi parked outside”).

A partir daí, ARIZONA BABY se transforma, entrando em um clima  que beira à melancolia por tratar de temas delicados. “CORPUS CHRISTI” é um desses momentos; a música leva o nome da cidade natal do cantor e fala sobre Ameer Vann, rapper e amigo de infância de Kevin que acabou sendo expulso do BROCKHAMPTON após acusações de abuso sexual e emocional (“I wonder if Ameer think about me, or what he think about me”). O disco se transforma em uma experiência ainda mais intimista com “BABY BOY” e “MISSISSIPPI”, que narra a relação de Abstract com sua depressão.

Os pontos fracos de ARIZONA BABY estão na sua segunda metade, com “PEACH” e “CRUMBLE”, justamente as duas faixas que inserem o bedroom pop; em um álbum com tantas batidas e linhas instrumentais interessantes, essas ficam abaixo da média por terem uma sonoridade mais genérica e sem alma. Entretanto, “USE ME” e principalmente “AMERICAN PROBLEM” são os pontos altos do trabalho; na nona faixa do disco, Kevin mistura uma melodia mais limpa com a parte final cheia de rimas que acompanham bem os beats mais acelerados, enquanto o cantor relembra sua adolescência e ainda faz uma homenagem a um de seus maiores ídolos, Tyler, The Creator (“Ninth grade, Tyler was the illest shit I ever heard/Going to his concerts, no mask, singing every word/I think it’s kinda crazy how my life panned out”).

A última faixa do disco, “BOYER”, também é um destaque à parte, mostrando que Kevin não se interessa pelo convencional. A música é a mais pesada de ARIZONA BABY, tanto nos arranjos mais barulhentos e densos, quanto nos versos, que contam a relação de Abstract com um amigo de infância na sua cidade de origem (Davieon Boyer), e mais do que isso, fala da fase difícil do cantor com o uso de drogas e álcool, explicitando também seus problemas pra lidar com a fama (“I been depressed like every fucking week/Ever since i left high school, I could barely breathe/Gotta take pills now just to help me sleep/Every day a new demon taking over me”). Em um trabalho tão pessoal, ele definitivamente mostra que não tem nenhum medo em se expor por meio de sua arte.

Esse é mais um álbum consistente de um artista em ascensão. Kevin Abstract faz das suas músicas uma válvula de escape, desabafando sobre suas frustrações e problemas. Os versos demonstram que ele caminha em uma área do hip-hop que tem como grande referencia Kid Cudi (outra grande inspiração dele), já que o cantor, assim como Cudi, desconstrói o estereotipo dos rappers e parte para uma linha mais sentimental. Sendo assim, ARIZONA BABY, musicalmente falando, não foge do que Abstract já apresentou, mas funciona como mais um capitulo de um livro autobiográfico que o cantor constrói com suas músicas.

Kevin Abstract – ARIZONA BABY

Lançamento: 25 de Abril de 2019
Gravadora: RCA Records
Gênero: Rap
Produção: Jabari Manwa, Jack Antonoff, Kevin Abstract & Romil Hemnani

Faixas:
01. BIG WHEELS
02. JOYRIDE
03. GEORGIA
04. CORPUS CHRISTI
05. BABY BOY
06. MISSISSIPPI
07. USE ME
08. PEACH
09. AMERICAN PROBLEM
10. CRUMBLE
11. BOYER

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