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Review: Tyler, the Creator – IGOR

O nome IGOR tem um significado duplo na cultura popular (especialmente americana); é um termo utilizado pra alguém que é muito bom naquilo que faz, e também é um tipo de personagem comum nos filmes de terror dos anos 30/40, sendo aqueles assistentes bizarros de algum cientista, sempre os acompanhando nas mais diversas experiências. Essa significação ambígua de Igor cabe perfeitamente em uma explicação sobre o que é o novo álbum do rapper Tyler, the Creator.

“Igor. Isso não é Bastard. Isso não é Goblin. Isso não é Wolf. Isso não é Cherry Bomb. Isso não é Flower Boy”. Essa foi uma das frases contidas no texto divulgado via redes sociais do próprio Tyler em relação ao álbum, e só traz a certeza de que tal qual um experimento estranho, IGOR definitivamente não se parece com nada que ele já fez. Responsável por toda a produção, o rapper se rodeia de influências já notáveis em discos anteriores, mas reutilizadas de uma forma nova; além disso, é possível perceber novas construções de camadas sonoras muito semelhantes ao que encontramos em trabalhos que Tyler ajudou a produzir, como o R&B e o jazz experimental do recente When I Get Home, da cantora Solange. “PUPPET”, que contém participação de Kanye West e “GONE GONE/THANK YOU”, são os maiores exemplos dessa sonoridade bastante diferente.

Em IGOR, é descrito o lado mais doloroso de uma experiência amorosa, que beira a obsessão. “IGOR’S THEME” e “EARFQUAKE” são as músicas que iniciam a narrativa, com um Tyler vulnerável em relação aos seus sentimentos. A melodia com batidas mais pesadas com acordes de piano são uma junção de todas as texturas sonoras de discos do cantor, em especial Cherry Bomb (2015) e o aclamado Flower Boy (2017). No caso da segunda faixa, o refrão viciante expõe toda a construção lírica voltada ao amor que o álbum possui: “’Cause you make my earth quake/Oh, you make my earth quake/Riding around, you’re telling me something is bad/And it’s making my heart break”.

Tudo em IGOR é fascinante, e a próxima faixa, “I THINK”, cheia de groove com riffs incríveis de baixo e piano é uma das provas disso. Ela contém participação de Solange e carrega uma vibe soul-funk dos anos 70, tão alegre quanto o inicio de uma paixão. Esse sentimento se expressa nos beats dançantes que se alongam e nos versos do refrão “I think I’m falling in love (Skate)/This time i think it’s for real (Four, skate)”.

Outro destaque de IGOR é a forma que Tyler utiliza da sua voz como um instrumento em diversos momentos. Nos mais melancólicos como “RUNNING OUT OF TIME” e “ARE WE STILL FRIENDS?”, o rapper utiliza de um vocal mais limpo, algo que raramente se escutava em discos mais antigos como Bastard (2010) ou Goblin (2011). Nas faixas com um instrumental mais carregado, que são justamente os momentos em que o cantor parece estar mais obcecado com essa relação amorosa descrita (casos de “NEW MAGIC WAND” e “WHAT’S GOOD”), ouve-se mais rimas com uma suposta raiva que Tyler aparenta ter quando faz isso. Isso ajuda a tocar os sentimentos de quem escuta o álbum.

Roubando novamente as palavras do texto do rapper em relação à IGOR, “não vá esperando um álbum de rap. Não vá esperando qualquer álbum”. Esse é um trabalho que vai além, e demonstra todo o poder criativo do rapper. Ao abordar os estágios que compõem o inicio e o fim de um relacionamento, Tyler justifica a alcunha de “criador”, mostrando cada vez mais que o seu repertório é extenso. IGOR vai te instigar e fazer você se interessar por novos detalhes  dele a cada ouvida, algo que já faz do disco um dos melhores não apenas de 2019, mas dos últimos anos.

Tyler, the Creator – IGOR

Lançamento: 17 de Maio de 2019
Gravadora: RCA Records
Gênero: Rap, Funk, R&B
Produção: Tyler, the Creator

Faixas:
01. IGOR’S THEME
02. EARFQUAKE
03. I THINK
04. EXACTLY WHAT YOU RUN FROM YOU END UP CHASING
05. RUNNING OUT OF TIME
06. NEW MAGIC WAND
07. A BOY IS A GUN
08. PUPPET
09. WHAT’S GOOD
10. GONE, GONE / THANK YOU
11. I DON’T LOVE YOU ANYMORE
12. ARE WE STILL FRIENDS?

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