Capa de Songs / Instrumentals, de Adrianne Lenker
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Review: Adrianne Lenker – songs / instrumentals

Qual o sentido da vida? Esse é um dos questionamentos mais filosóficos e complexos que percorrem a história da humanidade, e sua resposta já foi buscada inúmeras vezes. Por outro lado, há quem só aproveite a existência como algo amplo e intenso, como um objeto que não necessita de uma resposta concreta. Essa intensidade que permeia a nossa vida é o ponto central de songs / instrumentals, os dois discos lançados por Adrianne Lenker recentemente.

Os LPs são uma tentativa de encapsulamento de diversos sentimentos que invadem a nossa vida; por isso, é frequente no trabalho o contato com a solidão, a perda, a superação e a inevitabilidade do tempo. A vocalista do Big Thief – banda que surgiu em 2015 e conquistou aclamação no ano passado com dois discos incríveis, U.F.O.F. e Two Hands – confirma nessa empreitada solo como ela é uma das cantoras e compositoras mais talentosas da nova geração.

A imersão em sensações que é transmitida por songs / instrumentals se relaciona diretamente com o período da gravação dos LPs; o período em questão foi um dos mais caóticos da vida de Adrianne Lenker e Phil Weinrobe (que coproduziu ambos juntamente com Adrianne). Adrianne e Phil estavam processando perdas; ela lidava com o término de uma relação de longa data, e ele havia acabado de perder um familiar próximo que faleceu. Além disso, os álbuns foram gravados entre Abril e Maio, período em que a quarentena começava a se intensificar nos Estados Unidos; por isso, songs / instrumentals foram feitos durante uma estadia em uma cabana no meio de uma floresta de Massachusetts, e é algo que aumenta o sentimento de comoção dos dois registros.

Adrianne Lenker se firma como uma das principais compositoras da nova geração em songs / instrumentals [Foto: DIY]

songs

A faixa de abertura de songs, “two reverse”, combina uma melodia terna com uma letra forte; Adrianne fala sobre como alimentamos a solidão e outras sensações por puro apego:

“Deite-me assim/Para deixar você ir/Me diga mentiras/Eu quero ver seus olhos/É um crime dizer/Eu ainda preciso de você?/Crime, eu quero alimentá-lo”

Em seguida, “ingydar” entra em outro tópico fundamental: o tempo, e como ele suga tudo e todos. Adrianne materializa em sua voz como não aceitamos muito bem essa questão, com um vocal que soa revoltado e ao mesmo tempo doce. O single “anything” aborda novamente a solidão, e como evitamos olhar para ela, não falando sobre; “E eu não quero falar sobre nada”, ela repete insistentemente no refrão.

Lenker aborda temas como a solidão e a inevitabilidade do tempo como ninguém [Foto: Pitchfork]

Conforme o tempo passa em songs, o álbum vai ficando com composições cada vez mais poéticas. É como se Lenker estivesse se perdendo em seus próprios pensamentos; ouvir songs é uma experiência intimista, que pode tocar cada ouvinte de modo diferente. “forwards beckon rebound” metaforiza a passagem do tempo com elementos da natureza – elementos esses que também vão ganhando mais espaço conforme vai correndo o disco. Aliás, o contato próximo com a natureza durante o isolamento serviu como inspiração criativa para Adrianne. Isso se sintetiza em “heavy focus”, quando a cantora olha para momentos felizes em formas de movimentos naturais:

Invisível como um branco/Cobertor fantasma/Sem árvores dobradas / Trêmulas como na primeira dança / Trêmulas como na primeira vez / Nossas palmas se encontraram no suor dos moluscos

A capacidade de Adrianne em variar o tom de voz é outro tópico que faz de songs um álbum especial. A sequência “half return”/”come” é uma bela amostra disso;  na primeira, a cantora assume uma entonação mais otimista – até por conta do tema, um retorno sentimental à infância. Já a segunda tem um clima quase fúnebre, e Lenker soa machucada, amargurada. Aliás, a sua voz em junção ao barulho de chuva inserido acertadamente na melodia traz um clima ainda mais obscuro que a faixa pede.

Por fim, songs chega em um momento mais otimista e que abraça a amplitude da nossa existência. “zombie girl”, apesar de questionar como podemos viver em uma relação de forma vazia, nos ensina também que não devemos nos esconder nessa situação. Isso se complementa com “not a lot, just forever”; como o próprio nome da música anuncia, ela fala de momentos de nossa vida que apesar de marcarem, não precisam significar tanto. Com isso, surge o single “dragon eyes”, quando Adrianne vê na natureza um clarão de que os tempos ruins passaram:

As estrelas desabrocham na noite quente de verão / Elas têm uma vista clara sem a luz do quarto / Elas não querem nomear você, não querem nomear você

songs se encerra com “my angel”; a canção começa com um belíssimo solo de violão, que consegue transmitir toda a delicadeza e o sentimento de purificação que o álbum possui. O fim abrupto deixa o ouvinte querendo mais, e também serve como um alerta de que todo momento mais calmo pode ter o seu fim.

instrumentals

Enquanto que songs é mais autorreflexivo – especialmente em relação ao fato de se sentir sozinho – instrumentals funciona como um complemento. Ele é uma forma de fazer com que o ouvinte não se sinta só. “music for indigo” e “mostly chimes” são muito mais do que sessões instrumentais; elas representam uma tentativa de simular uma pessoa muito próxima tocando para uma pessoa querida. As melodias são tranquilas, e novamente temos sons da natureza se misturando aos acordes. É possível escutar barulhos de chuva e de vento durante as duas faixas.

Por ter uma proposta muito mais leve e que busca aproximar as pessoas, instrumentals acaba sendo uma saída para o ambiente mais tenso de songs, que aborda questões existenciais. É um abraço em meio a um período tão caótico da humanidade.

A natureza tem um papel preponderante nas melodias de instrumentals. [Foto: divulgação]

Dois discos que provam o poder da arte em tempos difíceis

Ao criar dois projetos que funcionam como opostos, Adrianne Lenker cria uma unidade, uma junção que transmite a quem escuta songs / instrumentals o poder que a arte tem em criar reflexões profundas, mesmo em tempos tão complicados. O isolamento e o acolhimento que constitui os álbuns faz com que olhemos para nós mesmos, e define songs / instrumentals como um dos melhores e mais essenciais projetos de 2020. Voltando à pergunta do início do texto, o disco não oferece respostas; por outro lado, ele é um registro sobre a instabilidade do ser humano e da vida como um todo, e nos faz concluir de que isso é inerente à nossa existência. Sendo assim, para Adrianne, não devemos nos preocupar com o porquê de estarmos aqui, mas em como aproveitar estes momentos.

Capa de Songs / Instrumentals, de Adrianne Lenker

Adrianne Lenker – songs & instrumentals

Lançamento: 23 de Outubro de 2020
Gravadora: 4AD
Gênero: Folk
Produção: Adrianne Lenker e Phil Weinrobe

Faixas (songs): 
01. two reverse
02. ingydar
03. anything
04. forwards beckon rebound
05. heavy focus
06. half return
07. come
08. zombie girl
09. not a lot, just forever
10. dragon eyes
11. my angel

Faixas (instrumentals):
01. music for indigo
02. mostly chimes

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