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Review: Milton Nascimento e Criolo – Existe Amor

Em tempos em que uma pandemia mundial se faz protagonista no dia a dia das pessoas, muitas pautas também vieram à tona no meio do caos. Frases como “o país não pode parar” e “a economia tem que continuar girando” nos mostra como a sociedade aceita e continua enxergando muito dos problemas que são recorrentes a ela e, muitas vezes, não tenta mudar. E é nesse contexto que o Brasil e o mundo vem vivendo, que recebemos de dois brasileiros a obra Existe Amor, lançada em maio.

Milton Nascimento e Criolo, em uma parceria inédita, idealizaram um EP com quatro faixas, já compostas há anos atrás – algumas até no século anterior, mas que mesmo assim traduzem um sentimento muito presente hoje. Os dois se conheceram durante o Prêmio da Música Brasileira 2012, por intermédio do grande Ney Matogrosso, mas a admiração vem de muito antes, como conta reportagem do Correio Braziliense.

Milton conheceu o trabalho do rapper quando ele lançou uma versão da música Cálice”, de Chico Buarque, em 2011. Depois de se encontrarem pessoalmente pela primeira vez, os dois embarcaram em uma turnê conjunta chamada Linha de Frente, em 2014. A partir daí, o sucesso e a amizade só aumentaram. Após oito anos do primeiro encontro, os fãs recebem este trabalho pequeno em número de faixas, mas grande em significado.

As músicas perpassam por temáticas importantes e relevantes para os dias atuais. O convite que os dois artistas nos fazem é para refletir sobre a importância delas no nosso dia a dia. Por isso, é interessante perceber quais as particularidades dessa obra. 

CAIS

A primeira faixa do EP foi escrita para o álbum Clube da Esquina, lançado em março de 1972, pela união dos amigos Milton Nascimento e Lô Borges. Desde lá, a composição faz muito sucesso não só entre os fãs, mas para quem gosta de uma música com estilo de poema musicalizado. 

A faixa já foi regravada outras vezes como, por exemplo, pela grande Elis Regina. Porém, dessa vez, a releitura traz muito do aspecto que encontramos lá em 72 quando foi lançada pela primeira vez. Milton e Criolo, juntos com Amaro Freitas, trazem um ar misterioso na voz que introduz os versos da canção. E talvez seja muito o que diz a letra da canção. 

Para quem quer se soltar invento o cais / Invento mais que a solidão me dá / Invento Lua nova a clarear / Invento o amor e sei a dor de encontrar / Eu queria ser feliz

Nessa mesma pegada, a música continua trazendo palavras que traduzem um sentimento forte sobre solidão, dor, amor e, também, sobre se descobrir um sonhador. São etapas muito demarcadas ao longo de sua sonoridade, desta vez em conjunto também com a potência de Criolo, que denota um ar de esperança no fim da música.

DEZ ANJOS

Esta faixa, para muitos, já é conhecida na voz de Gal Costa que a lançou em seu álbum Estratosférica (2015). Porém, a letra é composição original de Criolo e Milton Nascimento. 

As sonoridade trazida pela canção nos recorda muito as tradicionais composições e estilo de se fazer música de Milton Nascimento – o que não deixa de ser uma grande característica. Mas a letra merece um espaço de respeito no que tange a capacidade de se fazer presente nos dias atuais e o que mundo vem vivendo. Mesmo sendo uma música com alguns anos de composição, ao ouvir e entender a letra, podemos nos remeter a fatos e situações que vivenciamos nos últimos anos.

Sete almas dizem não / Oito almas pra sofrer / Nove almas narrarão / Que dez anjos vão morrer / Todos sem arma na mão

Estes são os versos que encerram a canção. É quase impossível ouvir esta música e não pensar automaticamente dos recentes fatos que o mundo vivenciou como, por exemplo, toda a luta conhecida pelo movimento #VidasNegrasImportam. Pensando em um contexto mais local, não é difícil recordar do assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro em 2018 e a morte do menino João Pedro, de 14 anos, assassinado dentro de casa por diversos tiros disparados pela Polícia do Rio de Janeiro neste ano.  

Recordamos desses fatos, e de tantos outros que acontecem todos os momentos devido ao racismo exacerbado que acomete a nossa sociedade, porque a música fala como é difícil viver nessas condições. Como é complicado o batente do dia a dia para quem sofre com preconceitos enraizados. 

É exatamente por isso que “Dez Anjos” se faz tão presente hoje – e para que não se faça mais daqui em diante, não podemos ignorar essas situações.

NÃO EXISTE AMOR EM SP

A penúltima faixa do EP já é muito conhecida pelo Brasil afora. Premiada pela MTV no Brasil e indicada a diversos outros prêmios, arrisco dizer que a letra se encontra no repertório até de quem não se identifica com o gênero musical de Criolo.

“Não Existe Amor em SP” é uma música que marca uma época. E, para ser mais específico, também um local. Lançada em 2011, a letra traz consigo grandes problemáticas que podem ser vistas na maior cidade da América Latina e, também, uma das mais antigas do Brasil – tendo em vista sua fundação em 1554. 

Sua musicalidade remonta uma melancolia que percebemos ser proposital na música. Afinal, a letra trata exatamente disso: uma São Paulo melancólica, que se mostra linda para quem é de fora, mas para quem se encontra presente nela pode ser um tanto quanto triste. Eu sempre disse que a mensagem que eu sempre via nesta música é “nem tudo é o que parece”. O maior polo industrial, econômico e social do Brasil também apresenta suas falhas.

O TAMBOR

Uma música em forma de resistência. A faixa que finaliza o EP Existe Amor não poderia trazer outra mensagem, senão uma que remeta à esperança. Afinal, no meio do turbilhão de coisas que o Brasil, o mundo, as pessoas e a sociedade como um todo vem vivendo, não nos pode faltar a esperança.

Em “O Tambor”, Milton Nascimento e Criolo começam a canção dizendo: “Chega de ser, de sofrer, de chorar / Mastigar toda desgraça com pão / Saliva com ódio num prato de arroz com feijão / Pra quem não sabe o que é humilhação”. A letra condiz muito com uma fala de Milton em uma entrevista onde ele diz que o que resta para os artistas hoje é a resistência. 

Não sejamos levianos em pensar que a arte hoje – ou mesmo antigamente – não é política. Por meio dela, o artista leva o que tem mais de sincero dentro dele e, por fim, acaba representando muita coisa que todo mundo vive todos os dias. Em uma leitura simplista, “O Tambor” pode representar um cansaço, mas se pararmos para entender bem, não é disso que os artistas estão falando.

Enfim. Neste pequeno EP, os dois artistas falaram de sociedade, sentimentos, revoltas e acontecimentos antigos que ainda são atuais. “Existe Amor” é um convite para a reflexão de diversas esferas que nos circundam enquanto comunidade.

E para bom entendedor, meia palavra basta para sentir onde querem chegar com tudo isso: “E onde isso vai parar?” – O tambor.

Milton Nascimento e Criolo – Existe Amor [EP]

Lançamento: 08 de Maio de 2020
Gravadora: Oloko Records
Gênero: MPB
Produção:Daniel Ganjaman

Faixas:

01. Cais
02. Dez Anjos
03. Não Existe Amor em SP
04. O Tambor

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