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Review: Mac Miller – Circles

Uma das notícias mais chocantes e trágicas na música nos últimos anos foi a abrupta morte de Mac Miller, em 2018, causada por uma overdose. O respeitado cantor/produtor/rapper vivia uma fase de transformação na sua vida profissional e também pessoal: apesar dos problemas psicológicos e do término do relacionamento com a cantora Ariana Grande, em entrevistas e nas suas músicas Mac passava uma imagem mais otimista e cuidadosa de si mesmo.

Além disso, ele havia acabado de lançar Swimming, considerado por muitos um dos seus melhores discos. Nesse sentido, Circles, seu recente trabalho lançado de forma póstuma, veio como um consolo para as pessoas que ainda não conseguiram assimilar a perda de alguém tão talentoso.

Entendendo Mac Miller

Mac surgiu em meados de 2010, e com apenas 19 anos lançou seu primeiro disco de estúdio, Blue Slide Park. O mesmo se tornou um dos principais rappers de uma geração que também proporcionou nomes como Kendrick Lamar, J.Cole, Drake e Nipsey Hussle; portanto, é inegável que sua relevância durante esse período o tornou um dos maiores artistas do gênero.

Sua discografia é marcada por uma evolução no seu trabalho, onde é possível enxergar o amadurecimento de Miller como pessoa e também como cantor. Infelizmente, o passar dos anos também mostrou os inúmeros transtornos psicológicos e também os problemas com o vício em drogas que ele teve que enfrentar; é possível encontrar o mesmo falando sobre isso em entrevistas desde 2015.

Circles é uma mensagem positiva e ao mesmo tempo realista sobre a vida

Em Swimming, Mac passou a limpo todos os seus problemas, desde o vício em drogas até o término conturbado com Ariana. Mais do que isso, o álbum mostrou extrema maturidade de Miller como pessoa; em todos os momentos, você o via assumindo quem é, e de certa forma expressando uma mensagem positiva através disso: apesar de tudo, não somos os nossos problemas, e podemos melhorar. Esse é o tom também em Circles.

Em relação às melodias, tudo aqui é pensado para trazer um clima de paz e meditação; Circles é mais introspectivo do que o seu antecessor, e não é por menos, já que no álbum adentramos ainda mais na personalidade de Mac. Nesse sentido, mérito para Jon Brion, produtor do registro; o mesmo já conversava com Miller sobre o seu sexto disco, e finalizou o trabalho com muito carinho aos detalhes. Apesar de póstumo, ele consegue transparecer unidade e coesão.

Em Circles temos acesso a um instrumental rico. O início com a faixa que leva o nome do disco e “Complicated” são canções que se inspiram num ritmo voltado para o jazz, e que trabalha muito bem o violão e os sintetizadores. Além disso, é possível escutar alguns dos versos mais bonitos da carreira de Mac, como “Você se sente culpado, eu me sinto bem/Não coloque nenhuma pressão a mais em você mesmo”. Ao mesmo tempo que é um alívio ver Miller ter uma visão mais leve da vida, é muito emocionante e de uma beleza única ver como as suas palavras também servem para qualquer um de nós.

O álbum prossegue com “Blue World” e “Good News”, primeira música lançada após a morte de Mac. Enquanto a primeira transmite uma vibe mais alegre, a segunda vem com melodias mais intimistas, enquanto o rapper dispara um dos trechos mais duros do trabalho: “Boas notícias, boas notícias, boas notícias/É tudo que eles querem ouvir/Não, eles não gostam quando eu estou pra baixo/Mas quando eu estou voando,oh/Isso os faz tão desconfortáveis”.

A segunda metade do registro também reveza entre momentos mais positivos e outros em que Mac é mais realista sobre como é conviver com os problemas; nesse sentido, destaque para “Woods” e especialmente “That’s On Me”, que remete a grandes baladas do pop e demonstra toda a capacidade vocal de Mac. Outra que merece ser ressaltada é “Hands”, única canção do álbum com camadas sonoras mais ligadas ao hip-hop, e que mostra a habilidade como rapper de Miller.

Um adeus e um ensinamento sobre coexistir com nossas frustrações

De um modo geral, Circles não é apenas uma “carta de despedida” de Mac Miller, mas muito mais do que isso, é um registro de quem foi Miller: um ser humano iluminado. Miller pode ser considerado o Elliott Smith do hip-hop: mesmo com todos os problemas pessoas e sua triste trajetória, sua música é uma mensagem construtiva sobre o porquê passamos por certas coisas, e porque a vida é muito mais do que nossas tragédias. Circles consegue materializar tudo isso.

Descanse em paz, Mac.

Mac Miller – Circles

Lançamento: 17 de Janeiro de 2020
Gravadora: Warner
Gênero: Rap
Produção: Jon Brion, David x Eli, Eric Dan, Guy Lawrence, Mac Miller & Shea Taylor

Faixas:
01. Circles
02. Complicated
03. Blue World
04. Good News
05. I Can See
06. Everybody
07. Woods
08. Hand Me Downs
09. That’s On Me
10. Hands
11. Surf
12. Once a Day

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