Reviews

Review: Bon Iver – i,i

O Bon Iver se estabeleceu como um dos projetos mais interessantes da música alternativa desde a década passada; liderados pelo admirável Justin Vernon, eles construíram uma discografia sólida ao longo dos últimos anos.

Com i,i, mais uma vez eles entregam uma obra intrigante, uma ação purificadora direcionada ao público, e que por meio de sua sonoridade consegue comover.

i,i é o encerramento de um ciclo; de acordo com o próprio Bon Iver, todos os discos anteriores representam uma estação do ano. For Emma, Forever Ago (2007), o álbum de estreia, reproduz um duro e isolado inverno; Bon Iver, Bon Iver (2011), uma primavera que, ao contrário do registro anterior, compartilha histórias de diversos locais, trazendo também um clima mais leve e que ao mesmo tempo distancia o ouvinte em relação ao eu lírico.

Em 22, A Million (2016), o verão transporta consigo uma raiva interior vinda das composições, em meio às abstrações e distorções de voz; um trabalho que ilumina os sentimentos. Sendo assim, i,i é o outono, a etapa final que carrega outras transformações.

Liderados por Justin Vernon (foto), o Bon Iver apresenta mais um disco incrível (Imagem: Pitchfork)

Esse conceito bastante filosófico se encaixa quando pensamos na estética artística do Bon Iver,  e se fortalece com o novo trabalho. Cada disco possui uma singularidade, uma individualidade que não apenas aponta uma suposta capacidade de se reinventar, mas de também mexer com determinada pessoa de diferentes formas, como ocorre nas estações. i,i é mais um capítulo disso.

O aspecto mais encantador do novo álbum tem a ver com ele parecer menos com algo que foi processado de forma individual por Justin Vernon; aqui, outros artistas que já participavam do Bon Iver ou que foram convidados conseguem se destacar. Há uma espécie de bagunça sonora e vocal que dá bastante certo, como na belíssima “iMi”, que entre tantas colaborações tem a presença de James Blake, e na reflexiva “Faith”.

‘i,i’ é palco de mais uma parceria entre Justin Vernon e James Blake (Imagem: BBC)

i,i, como o próprio nome do álbum antecipa, é composto por vários “eu”. Fica impossível definir o que tem dedo de Vernon, Chris Messina, ou Brad Cook, responsáveis pela produção; O fato é que há uma variação de melodias que deixa a experiência emocional intensa e diversa. “Holyfields” e “Hey Ma”, que se seguem durante a coletânea, são completamente diferentes entre si, apesar de conversar sobre o mesmo ponto: a destruição da terra e consequentemente do homem (“A aurora está nascendo/O solo não está nascendo”, é cantado na quarta faixa). Assim como em 22, A Million, há sintetizadores que por vezes encobrem os vocais, mas que agora se revezam também com momentos de mais calmaria. O resultado é uma junção de tudo que o Bon Iver já apresentou,  sem deixar de conter novidades.

Os arranjos de piano, que é compartilhado por diversos músicos, se sobressaem; eles engrandecem vários momentos. “We” e “U (Man Like)” são exemplos disso, enquanto Justin mistura versos dolorosos, reais e libertadores (“Quanto zelo temos de algum amor americano/Quando há amantes dormindo em suas ruas?”). “Naeem” é brilhante, um dos momentos de musicalidade mais limpa, no qual Vernon externa pura emoção pela voz.

Essa é uma experiência sonora sensível, que junta fragmentos e os transforma numa unidade acolhedora ao ouvinte; apesar das letras terem um tom até certo ponto pessimista, o registro é muito mais sobre pensar, exibindo finalmente uma faceta mais positiva do Bon Iver. “Salem”, por exemplo, fala sobre perseguições a determinados grupos e a importância da aceitação (“Porque anormalidades/Certamente/São tudo que você vê/Então o que eu acho que nós precisamos/É elasticidade, empoderamento e conforto”).

“Sh’Diah” é a prova da comunhão em i,i, onde todos tem a sua importância e não se escondem. O sax de Mike Lewis que encerra a faixa talvez seja o momento mais bonito do disco; de certa forma, ela até apaga um pouco a canção que fecha o LP, “RABi”. Esse é o único período mais monótono da obra, mas que de forma alguma traz demérito ao trabalho.

Com i,i, o Bon Iver mais uma vez se coloca como um dos maiores acontecimentos da música alternativa nesse século. Mais importante, o álbum prova que o projeto não é uma banda de um homem só; o Bon Iver é uma espécie de entidade independente, onde todos são bem-vindos.

Bon Iver – i,i

Lançamento: 9 de Agosto de 2019
Gravadora: Jagjaguwar
Produção: Chris Messina, Brad Cook & Justin Vernon
Gênero: Indie, Folk

Faixas:
01. Yi
02. iMi
03. We
04. Holyfields
05. Hey, Ma
06. U (Man Like)
07. Naeem
08. Jelmore
09. Faith
10. Marion
11. Salem
12. Sh’Diah
13. RABi

Comentários