Capa do álbum 'Interior'
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Review: Carne Doce – Interior

Ainda que Carne Doce se mantenha firme em sua identidade, a estrada percorrida em Interior é o inverso do apresentado em Tônus (2018). Continuam introspectivos, porém desta vez reaparecem em cores quentes e sons vibrantes. Falam sobre a essência do ser ou de suas origens, o que, para muitos, é classificado como o mesmo devido à música “interiorana” tocada pelo quinteto.

Sem a assinatura psicodélica dos álbuns anteriores, nos deparamos com letras profundas de Salma Jô, cuja voz vai longe dos tons urgentes e emociona pela franqueza intimista. Mais soltos, o disco passa por ritmos como reggae ao trap, sem medo de mudanças, — como se afirmassem um reinício —, mas sem esquecer de onde vieram.

Interior é um álbum cheio de simbolismos e complexidade, a começar pela capa. Um pequi cortado de forma a mostrar o fruto carnudo e a polpa envolvida por uma coroa de espinhos. Belo e defensivo, amado por muitos e nem tanto por outros, este é o retrato da fruta do cerrado e também de Carne Doce. Há a dualidade do interior como símbolo de fragilidade e força, mas também a afirmação de como é vir de longe das maiores metrópoles do país e residir no centro-oeste brasileiro.

Por dentro do pequi

A parte geográfica do discurso só se faz clara em “Temporal”. Anunciando um cenário apocalíptico e a arrogância da humanidade frente a possibilidade de extinção, a faixa se espalha por quase oito minutos entre os riffs das guitarras e a bateria ritmada, mas a força da melodia reside no potente baixo de Aderson Maia. Envolvida pelo ritmo dançante, Salma chama atenção pela voz contida, sem a agressividade já conhecida pelos ouvintes mais antigos.

Se “Temporal” é prima de “Sertão Urbano” (de 2014), Interior, a faixa que leva o nome do disco, aborda um tema pouco visto em composições anteriores, a esperança. A canção cresce e se desenrola sem pressa em meio a batida eletrônica e sintetizadores de João Victor Santana — que também assina a produção do álbum —, ganhando um tom quase místico. É aqui que tomam forma os tons ensolarados do novo trabalho, indicando uma mudança de direção em relação aos álbuns anteriores.

carne doce
Da esquerda para direita: Aderson Maia, Frederico Valle, Salma Jô, João Victor Santana e Macloys. Foto: Macloys

“Hater” é apenas um dos espinhos do pequi. Chega calma e ganha pelo “sambinha indie”, mas alfineta os desavisados. Cantando em tom debochado sobre adoradores às avessas, Salma propõe uma letra catártica, porém complexa: a relação do ódio apaixonado e narcisismo nutrido entre ambas as partes. Correlacionada à canção do covarde predileto, situada na reta final do disco, o ritmo trap de “Fake” traz à luz a falta de comunicação na internet e uma sociedade polarizada, fruto direto de um radicalismo político.

Carro-chefe do álbum, Garoto é um pop-rock que fala sobre flerte, rápido e direto. A estrutura pouco vista em músicas anteriores é uma surpresa que se torna maior ao ouvirmos a participação de Macloys. Na sequência, “Saudade” e “Passarin” abordam o amor por pontos de vista diferente: sobre um relacionamento que esfriou e a busca solitária por um amor, respectivamente.

O luto etéreo em “A Partida” abre o último bloco do trabalho, seguida da existencialista Sonho, canções abstratas sobre o sentir. O reggae e dub tomam conta do experimentalismo de “Cérebro Bobo” e “A Caçada”inspirada no conto de Lygia Fagundes Telles —, confirmando a boa escolha de Frederico Valle para assumir a bateria.

Por fim, “De Graça” parece ter sido puxada diretamente do Princesa, segundo álbum de estúdio. Com um quê dos shows e um toque de Açaí, o álbum termina em um ambíguo clima festivo que se choca entre instrumental e letra, entre guitarras já conhecidas, baixo e baterias acolhedoras. É a intensa carreira da banda sendo revisitada e finalizando o trabalho da melhor forma Carne Doce: aquela pontinha despretensiosa com aquele pensamento “mas já?”. Queridos amigos, fudeu.

Tá servido?

Carne Doce mergulha de cabeça em suas próprias origens, apresentando um álbum de imensa complexidade. O mundo e o interior é unidade, em todos as conotações abordadas no trabalho. Menos afobados, Interior apresenta o amadurecimento e a eterna busca por tentar se compreender e o nosso lugar no mundo. Menos homogêneo que o álbum anterior, os blocos do álbum soam como pequenos trabalhos independentes, mas ainda minucioso e atingindo bem os objetivos propostos, tornar a música mais pop e acessível para novos ouvintes.

Com conceito forte, o álbum é primoroso pelas diversas referências. As composições e voz — é preciso dizer que as linhas de Salma estão mais maduras que nunca — andam  juntos, de forma delicada e dolorosa. Se não considerado um dos maiores álbuns do ano do indie brasileiro, ao menos será forte candidato para o melhor álbum da carreira, talvez empatando apenas com seu antecessor.

De exposição única, Interior é um álbum de isolamento. Foi interrompido, retomado em casa e no estúdio, mas jamais ficará datado: é o retrato do que é ser humano e todas as questões de um mundo contemporâneo e como os sentimentos nos atravessam.

Carne Doce – Interior

Lançamento: 18 de setembro de 2020
Gravadora: UP Music Digital Studio
Gênero:  Indie Rock, Rock
Produção: João Victor Santana

Faixas:
01. Temporal
02. Interior
03. Hater
04. Garoto
05. Saudade
06. Passarin
07. A Partida
08. Sonho
09. Fake
10. Cérebro Bobo
11. A Caçada
12. De Graça

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