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Review: Vampire Weekend – Father of the Bride

Uma década na indústria musical muitas vezes significa um intervalo de tempo entre o começo e o fim de uma banda; continuar relevante e inovando talvez seja o maior desafio pra músicos de longa data. No caso do Vampire Weekend, esse desafio está longe de ser um problema. Desde 2008, eles são um dos grupos mais importantes e criativos da cena do indie rock, sempre trazendo obras interessantes e que justificam o reconhecimento atribuído a eles ao longo do tempo. Father of the Bride, seu quarto álbum de estúdio recentemente lançado, segue como mais uma amostra do que Ezra Koenig e cia. são capazes de fazer.

Dessa vez, os obstáculos para entregar algo consistente pareciam serem maiores, e dois fatores geraram bastante expectativa com o que encontraríamos em FOTB; o primeiro deles é o tempo sem lançar algo novo, já que, o último álbum lançado pelo Vampire Weekend, Modern Vampires of the City, é de 2013. Desde então, muita coisa aconteceu tanto na vida profissional quanto pessoal do trio, e é natural que as experiências que o tempo traz apareceriam direta e indiretamente de diversas formas em um trabalho de inéditas. Outro ponto, talvez o mais importante, é a saída do multi-instrumentista Rostam Batmanglij, um dos responsáveis por boa parte da produção dos discos anteriores. O mesmo ainda colabora eventualmente, e aparece em Father of the Bride produzindo “Harmony Hall” e “We Belong Together”. Entretanto, é óbvio que a saída de um dos membros mais criativos do grupo ocasionou em diversas mudanças na sonoridade.

É importante ressaltar que para o Vampire Weekend, sair de uma zona confortável de criação nunca foi um problema, já que todos os seus álbuns possuem uma particularidade sonora. Em Father of the Bride isso não é diferente, e tanto nas melodias quanto nas letras é possível perceber elementos até então não mostrados antes pela banda; “Hold You Now”, música de abertura e que marca uma das três colaborações creditadas à Danielle Haim, é um cartão de visitas que mostra um VW mais intimista, com menos bateria e uma balada que flerta com o country/folk.

“Sympathy” aposta no flamenco pra falar sobre intolerância religiosa (“Judeo-Christianity, I’d never heard the words/Enemies for centuries, until there was a third”). Os versos são simplistas, e a capacidade de Ezra em metaforizar é deixada de lado em Father of the Bride. Mas isso de fato não é algo tão ruim, já que isso torna as faixas mais acessíveis, e demonstram um Koenig mais preocupado em passar uma mensagem direta ao ouvinte, narrando as nuances do cotidiano humano.

“This Life” e “Unbearably White” (que foram lançadas como singles de FOTB) tratam da temática amorosa por uma perspectiva diferente, falando sobre relações e expectativas, por meio de versos como “Baby I know pain is as natural as the rain/I just thought it didn’t rain in California/Baby, I know love isn’t what I thought it was/’Cause I’ve never known a love like this before ya” ou “Baby, I love you/But that’s not enough/And pulling away has been unbearably buff”.

“My Mistake” e “2021” podem entrar no hall de músicas mais melancólicas da banda; não apenas pela melodia, carregada somente pelo piano e pela total ausência de camadas sonoras mais densas, mas pelas letras que refletem a passagem de tempo e o quanto isso afeta nossas vidas. Já “Sunflower” e “Flower Moon”, ambas com participação do guitarrista Steve Lacy (The Internet), são uma antítese dessa ambientação, com arranjos mais alegres que remetem ao afropop. A participação de Steve é fundamental pra ser um escape do ritmo mais lento do disco; além disso, com o guitarrista fica mais fácil o Vampire Weekend fazer aquilo que faz de melhor: experimentar e misturar sons.

Father of the Bride também tem seus problemas, sendo o principal deles o extenso número de faixas e de tempo propriamente dito (quase uma hora); em um álbum que traz canções com temas e texturas sonoras semelhantes, o tédio pode acabar sendo uma sensação comum ao ouvinte. “Big Blue” e “Married in a Gold Rush”, por exemplo, são músicas extremamente esquecíveis e que não se conectam com o trabalho. De qualquer forma, um disco duplo numa época em que isso é cada vez mais raro é mais uma demonstração de que a banda não se importa em “sair da caixinha”.

Apesar desse ser o trabalho “mais fraco” do Vampire Weekend, Father of the Bride contém ótimos momentos, e é um álbum honesto de músicos que desde sempre gostam de cantar sobre a vida e as pessoas. Nesse sentido, a capa de FOTB faz jus não só à esse disco, como a todas as obras já lançadas pelo trio nova iorquino; no final das contas, poucos artistas retratam de forma tão brilhante detalhes do nosso mundo quanto eles.

Vampire Weekend – Father of the Bride

Lançamento: 03 de Maio de 2019
Gravadora: Columbia & Sony Music Entertainment
Gênero: Indie
Produção: Ezra Koenig & Ariel Rechtshaid

Faixas:
01. Hold You Now (feat. Danielle Haim)
02. Harmony Hall
03. Bambina
04. This Life
05. Big Blue
06. How Long?
07. Unbearably White
08. Rich Man
09. Married in a Gold Rush (feat. Danielle Haim)
10. My Mistake
11. Sympathy
12. Sunflower (feat. Steve Lacy)
13. Flower Moon (feat. Steve Lacy)
14. 2021
15. We Belong Together (feat. Danielle Haim)
16. Stranger
17. Spring Snow
18. Jerusalem, New York, Berlin

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