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Review: Anderson .Paak – Ventura

Anderson .Paak é um daqueles artistas que consegue de forma brilhante utilizar elementos musicais do passado e ao mesmo criar sua própria sonoridade, fazendo dele um dos cantores mais talentosos da atualidade. Após o aclamado Malibu (2016) e o ainda recente Oxnard (2017), Andy reapareceu com o seu novo trabalho, Ventura, um disco com diversas referências da black music dos anos 60, sem deixar de ter a cara de .Paak.

Ventura surge em um momento bastante importante na carreira do rapper: ele foi premiado no último Grammy (Melhor Performance de Rap por “Bubblin’”), se consolidando como um dos principais nomes do gênero. Por outro lado, “Oxnard” ficou abaixo das expectativas, trazendo uma sonoridade mais arriscada, mas não tão impactante e envolvente quanto a do seu disco predecessor, Malibu. Por esse motivo, o lançamento de Ventura cinco meses após o último álbum se tornou algo bastante esperado.

Ventura foi gravado simultaneamente com Oxnard e, novamente, um nome importante aparece na produção executiva: Dr. Dre, que também participou do último trabalho. Porém, é notável como esse processo no novo disco resultou em camadas sonoras diferentes do trabalho anterior, especialmente pelas influências de .Paak estarem muito mais presentes. Há uma vibe soul/R&B que remete aos tempos da Motown (gravadora responsável por lançar os maiores nomes desse estilo especialmente nas décadas de 60 e 70); isso fica aparente em faixas como “Make It Better”, que contém participação de uma das grandes lendas da história do selo: Smokey Robinson.

Todos os elementos sonoros que constituem os grandes clássicos do soul aparecem em Ventura; Anderson apostou em baterias e arranjos de baixo bastante presentes e intensos, além do estilo “canto-e-resposta” muito presente no black gospel. Entretanto, .Paak não abandona completamente o hip-hop; “Come Home”, canção que inicia a obra, é um dos pontos altos do trabalho, especialmente pelas rimas e o flow inigualável de Andre 3000. Outra canção que flerta naturalmente com o rap é “What Can We Do?”, uma vez que a mesma utiliza samples do rapper Nate Dogg, falecido em 2011 (a música é creditada como um feat. entre Nate e Andy).

As composições e as melodias em Ventura funcionam por meio de um groove bem encaixado, contendo também muito lirismo, questões sociais nas suas letras e arranjos tradicionais da black music. “Winners Circle” e principalmente “Chosen One” sintetizam a estética mais romântica, com rimas e versos que beiram a inocência do passado (“You could be a chosen one/Kiss me with your native tongue”). “King James” é a faixa com a temática mais séria, fazendo referência ao astro do basquete LeBron James, e abordando a importância de estar em uma posição de status e não esquecer suas raízes, ajudando sua comunidade. Ao mesmo tempo, há uma indireta ao presidente norte-americano Donald Trump: “If they build a wall, let’s jump the fence, I’m over this”, o que faz dessa música uma das mais poderosas do álbum.

Ventura é coeso, propondo uma atmosfera agradável e leve ao ouvinte; porém, faltam ganchos mais sólidos e um pouco mais de ousadia. Faixas como “Good Heels” e “Jet Black” estão aquém do que .Paak pode apresentar; não são canções ruins, mas elas não possuem algo que possa chamar a atenção tanto nos arranjos quanto na composição. Na realidade, o certo grau de semelhança que existe entre todas as músicas do disco pode fazer da obra um pouco monótona, já que na maioria do tempo temos esse ambiente mais “ameno”.

Mas calma: apesar de não ser o trabalho mais brilhante de .Paak, Ventura não deixa de exibir algumas das características mais interessantes do rapper; sua voz impecável, e a capacidade de transformar o clássico em algo novo e atraente ainda estão aqui em alguns momentos. Sendo assim, apesar de alguns defeitos, vale a pena dar uma chance ao álbum e ser ainda mais convencido do talento de Anderson.

Anderson .Paak – Ventura

Lançamento: 12 de Abril de 2019
Gravadora: Aftermath
Gênero: Rap / Soul
Produção: Dr. Dre, Anderson .Paak, The Alchemist, Callum and Kiefer, Dem Jointz, Fredwreck, Jairus ‘J’-Mo’ Mozee, Pharell Williams, Pomo & Vicky Farewell Nguyen

Faixas:
01. Come Home
02. Make It Better
03. Reachin’2 Much
04. Winners Circle
05. Good Heels
06. Yada Yada
07. King James
08. Chosen One
09. Jet Black
10. Twilight
11. What Can We Do?

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