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Review: Djonga – LADRÃO

O rapper mineiro Gustavo Pereira Marques, conhecido por Djonga, conseguiu se colocar, em um curto período de tempo, como um dos grandes nomes do rap nacional. Após estrear com debates importantíssimos abordados em Heresia (2017), e assumir o posto de Deus no poderoso O Menino que Queria Ser Deus (2018), Gustavin volta com o direto e maduro LADRÃO.

O conceito, claramente inspirado em Robin Hood, aponta a importância de valorizar suas raízes, e não se esquecer de onde veio; como o próprio Djonga disse através de suas redes, “o tipo de ladrão que busca e traz de volta pras minhas e pros meus”. LADRÃO reafirma o compromisso do músico em ser uma referência como um dos maiores nomes da cena de Belo Horizonte, e mais do que isso, mostra um artista com visão ampla sobre as questões sociais que cercam o Brasil, especialmente os que estão relacionados ao povo negro.

A questão das origens não apenas faz parte dos versos, como também foi um elemento importante na criação de LADRÃO; a equipe envolvida no trabalho é quase toda relacionada à cena do rap de Belo Horizonte. Na produção, o rapper manteve a parceria de longa data com Coyote Beatz; além disso, o álbum contém colaborações do funkeiro MC Kaio, além de Chris & Doug Now, também conterrâneos de Djonga; por fim, há a participação do carioca Felipe Ret, também outro amigo de anos. Um detalhe complementar que reforça o resgate às raízes foi o fato do disco ter sido gravado em um estúdio montado na casa da avó de Gustavo; com isso, a obra pode ser considerada a mais intimista do cantor.

Djonga inicia esse “roubo” na primeira faixa, “HAT-TRICK”; em meio à beats pesados, os já conhecidos vocais agressivos do rapper e versos carregados de referencias da cultura popular (“Isso te faz seguir real, igual um filme de terror na direção de Jordan Peele”), o músico clareia o racismo estruturado (“Irmão, quem te roubou te chama de ladrão desde cedo”) e o quão importante é o emponderamento do povo negro (“Ladrão, então peguemos de volta o que nos foi tirado”).

“BENÉ” segue a narrativa extremamente real de LADRÃO, dessa vez com as experiências do próprio Djonga no mundo do crime, e alerta sobre os perigos dessa vida (“Anos atrás achava que era dono do mundo/Hoje entendi, irmão, que o mundo é dono de mim”). A faixa tem um dos refrões que mais pegam o ouvinte de cara; os ganchos, não apenas nessa música, como no disco inteiro, se destacam e é o ponto forte do álbum; são certeiros e cativam logo de cara.

“LEAL” e “TIPO” são as lovesongs; no caso da primeira, apresenta elementos sonoros que fogem da estética do trabalho, com leve introdução de baixo e guitarra. Já a segunda é mais dançante, com a quase fusão do dance com o hip hop. As duas são a faceta mais relaxada de LADRÃO, e funcionam bem, já que entre elas está uma das canções mais carregadas e impactantes do álbum, “DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL”, com a sua analogia entre o cangaço e a periferia.

Na segunda metade, o álbum intensifica sua mensagem e alcança o seu ápice. A faixa que leva o título do disco amplifica os assuntos que a obra aborda, em meio ao flow frenético; o sample de MC Hudson 22 que finaliza a canção reforça esses elementos (“Só bandido de atitude/Só guerreiro Robin Hood/Não vai fazer disparos e nem fazer refém/Só querem o conteúdo, irmão, que aí dentro tem”). Enquanto isso, “BENÇA” aponta a importância de reconhecer suas ancestralidades, ao mesmo tempo em que também é uma homenagem de Djonga à sua avó.

“VOZ” tem um tom crítico social fortíssimo, trazendo a realidade do periferiano e negro em um país tão racista como o Brasil. Após o intimista interlúdio “MLK 4TR3VID0”, que interpola versos de “Moleque Atrevido” de Jorge Aragão, “FALCÃO” encerra o álbum com uma crítica ácida sobre a cena do rap nacional e o problema em focar no dinheiro, mas esquecer de se importar com o que a sua música representa na sua comunidade (“Daí formamo’ um pelotão de 50 mil mano/Que só serve pra confirmar que os cara tá ganhando/Porra, no que os irmão se transformaram?/Essa merda no começo era só pelo hip-hop”); fica claro que Djonga não é contra a exploração comercial do gênero (como o mesmo afirmou em entrevista ao Audiograma), mas não trazer isso para quem te apoia, não ser o tipo de ladrão que o disco tanto fala.

LADRÃO pode não ser considerado o álbum com mais originalidade da discografia de Djonga, já que as suas camadas sonoras são estruturadas por elementos que já apareceram em outros álbuns, além dos beats não terem muitas variações. Porém, ele é extremamente necessário e confirma o status de “trap de mensagem” que o músico traz com as suas canções; O álbum não foi feito para agradar os críticos, mas para a conscientização de quem essas mensagens estão direcionadas, o que também eleva seu valor. Sendo assim, o rapper consegue mais uma vez entregar um trabalho de altíssimo nível; LADRÃO transforma um estereótipo em discursos positivos, e confirma o porquê Gustavo pode ser considerado um dos maiores nomes da música nacional na atualidade.

Djonga – Ladrão

Lançamento: 13 de Março de 2019
Gravadora: Ceia
Gênero: Rap
Produção: Coyote Beatz, Arthur Luna, Fritz, JNR Beatz & Thiago Braga

Faixas:

01. HAT TRICK
02. BENÉ
03. LEAL
04. DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL
05. TIPO
06. LADRÃO
07. BENÇA
08. VOZ
09. MLK 4TR3VID0
10. FALCÃO

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