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Review: Grimes – Miss Anthropocene

“Eu só queria destruir algo bonito”. A frase proferida pelo personagem principal do filme Clube da Luta também sintetiza Miss Anthropocene, novo álbum da cantora/produtora Grimes.

Nesse trabalho, a canadense nos apresenta uma persona antropomórfica, uma deusa da mudança climática disposta a estabelecer o caos como padrão natural de nossa existência. Um conceito complicado, controverso e exatamente o que poderíamos esperar de uma artista como Claire Boucher.

Assumindo o seu lado vilã

Miss Anthropocene é o sucessor de dois trabalhos aclamadíssimos pela crítica e público: Visions (2012) e Art Angels (2015). Ambos se estabeleceram como clássicos da década passada, posicionando Grimes como uma referência criativa e de como é fazer arte nos tempos de hoje. Ela sempre conquistou por sua visão de mundo abstrata e misteriosa, que frequentemente estiveram refletidas em suas músicas; faixas como “Oblivion” e “Kill V. Maim”, por exemplo, fazem alusões tanto às experiências pessoais da artista quanto também homenageiam outras obras.

Em Miss Anthropocene, isso não é diferente: através da personagem que poderia muito bem ser a vilã de um filme sci-fi, nos distanciamos de Grimes, e entramos no mundo de Claire Boucher. Se caracterizar como uma vilã, nesse caso, não foi à toa: a artista sempre ficou marcada por supostamente representar uma espécie de pensamento “anti-sistema”, ou como a sua bio antiga no Twitter descrevia, anti-imperialista.

Entretanto, engatar um relacionamento com alguém como Elon Musk massacrou a reputação da cantora, como se tudo que ela representava até então fosse vazio. Nesse sentido, em seu novo disco, muito mais do que aparentemente suavizar a extinção humana, Grimes quer reforçar propositalmente essa imagem negativa na qual ela acabou sendo retratada, não se importando com outras opiniões.

O relacionamento entre Grimes e Elon Musk fez com que as pessoas tivessem outra percepção da cantora. (Créditos: Charles Sykes)

O cenário apocalíptico e agressivo de Miss Anthropocene

Ao querer passar uma visão positiva do fim, Grimes aborda alguns problemas que o homem, na modernidade, não soube lidar, como se esses problemas fossem ainda mais graves do que o aquecimento global. “Delete Forever”, uma das melhores faixas do álbum e também mais emocionais, aborda a autodestruição do ser humano perante às drogas. Claire, sobre a música, afirmou que se inspirou após o falecimento do rapper Lil Peep por uma overdose acidental. “You’ll miss me when I’m not around”, em meio às suas batidas intensas, nas entrelinhas fala sobre uma suposta tendência universal ao suicídio (“Eu atirei em mim mesma ontem/Trazida ao paraíso de qualquer forma”, ela canta nos primeiros versos da canção).

O cenário apocalíptico pensado para o álbum consegue ser transmitido para as melodias: desde seus dois primeiros registros de estúdio, Geidi Primes (2010) e Halfaxa, também do mesmo ano, não víamos Grimes arriscando em beats tão agressivos e em camadas sonoras tão densas. Por isso, “Darkseid” e a ótima “4ÆM” se destacam por seus excessos: as batidas marcantes e os sintetizadores pesados.  “My Name is Dark” soa como Nine Inch Nails, e é possível escutar uma forte influência do nu-metal/industrial.

Entretanto, há momentos mais calmos no trabalho, como a balada “New Gods” e a intro da faixa que encerra o disco, “IDORU”. E é justamente nesses momentos que o disco se torna menos interessante; diferente de “Delete Forever”, em que a composição e até mesmo a voz de Grimes conquistam, aqui Claire soa cansativa e não envolve o ouvinte. De qualquer forma, é válido ver como mesmo depois de tanto tempo, Grimes tenta fugir do óbvio.

A confirmação da criatividade de Grimes

Apesar de Miss Anthropocene não ser do mesmo patamar dos dois últimos discos, Grimes prova que não perdeu a mão; a artista que se provou ser uma das mais inventivas e que ajudou a redefinir a forma como se faz música na última década continua existindo. Musicalmente falando, estamos falando de um álbum que provavelmente será um dos melhores de 2020, graças ao talento e o medo de não errar da artista. Além disso, o registro permite que conhecemos quem é a atual Claire Boucher. Se você irá gostar dela ou não, isso só você vai poder decidir.

Grimes – Miss Anthropocene

Lançamento: 21 de Fevereiro de 2020
Gravadora: 4AD
Gênero: Pop
Produção: Grimes

Faixas:
01. So Heavy I Fell Through the Earth
02. Darkseid
03. Delete Forever
04. Violence
05. 4ÆM
06. New Gods
07. My Name Is Dark
08. You’ll miss me when I’m not around
09. Before the fever
10. IDORU

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