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Review: Michael Jackson – Dangerous

A janela se quebrando logo nos primeiros segundos de “Jam” é muito simbólica se você pensar no que o Dangerous representou para a carreira de Michael Jackson.

Após três álbuns memoráveis produzidos ao lado de Quincy Jones, Michael resolveu colocar um ponto final na parceria de sucesso e tomar as rédeas da sua própria carreira, voando sozinho como a principal mente por trás de seu oitavo álbum de estúdio.

Lançado em novembro de 1991, o álbum representa mais um rompimento com muito daquilo que era conhecido do Rei do Pop e marca o início da chamada “última fase” de sua carreira. Apostando forte nos efeitos eletrônicos, um vocal mais agressivo em boa parte das músicas e contando com letras mais profundas e provocativas, Dangerous é um trabalho diferente de qualquer coisa que Michael já tinha feito.

Muito se fala sobre a ruptura da parceria com Quincy e, para muitos, ela é o motivo pelo qual a recepção de Dangerous tenha sido bem diversificada. Muito se duvidava da capacidade de Michael como produtor executivo e, por mais que ele tenha se cercado por nomes como Teddy Riley, Bill Bottrell ou Bruce Swedien, a ausência de Quincy era sentida por muitos. Por outro lado, é difícil imaginar o antigo parceiro de Michael produzindo um álbum com tantos elementos eletrônicos/industriais quanto o Dangerous. Pensando naquilo que Jackson via como o futuro da música, era totalmente compreensível o fim da parceria.

Produzido entre junho de 1990 e outubro de 1991, o álbum carrega em suas letras muito daquilo que Michael vivia. Temas como a invasão de privacidade e a forma como a mídia lidava com ele se fizeram presentes logo nas duas primeiras faixas, a já citada “Jam” e “Why You Wanna Trip on Me”. Participando da composição de doze das catorze faixas do álbum, Michael mantinha nas mãos todo o conceito em torno do Dangerous. Ainda que só tenha escrito três dessas músicas totalmente sozinho – “Heal the World”, “Who Is It” e “Will You Be There” -, Jackson se mostrava cada vez mais envolvido nas composições, sobretudo quando era para falar de temas ligados a sua vida pessoal.

Músicas como “Remember The Time”, “Keep The Faith”, “Black Or White” e “Dangerous” se destacam por sua qualidade acima da média. Enquanto “Remember The Time” e “Keep The Faith” são músicas que mais se assemelham aos trabalhos anteriores, a faixa que dá nome ao álbum é aquela que melhor sintetiza tudo aquilo que Michael Jackson queria passar com essa nova ruptura musical, mesclando estilos de canto, casando bem com a pegada eletrônica presente no álbum e sendo, possivelmente, uma das melhores músicas lançadas por ele em toda a sua carreira. Por sua vez, “Black Or White” é apenas um dos maiores clássicos lançados por ele e marcante por diversos motivos. É nela que Michael Jackson passa o seu recado sobre o preconceito racial e ainda aproveita para alfinetar a imprensa e os críticos que davam destaque maior para a sua “mudança de cor” do que pela sua música propriamente dita. É em “Black Or White” que temos também a primeira participação de Slash, que também dá as caras em “Give In To Me”.

Algumas músicas se destacam por motivos alheios a sua produção. “In The Closet”, por exemplo, foi uma música escrita com o objetivo de se fazer um dueto entre Michael e Madonna no qual eles contariam a história de dois amantes que viviam uma relação secreta. No fim, a cantora não gravou o dueto – e os motivos não são conhecidos até então – e alguns trechos da música acabaram com a voz de uma “garota misteriosa” que, mais tarde, teve o seu nome revelado: era a princesa Stéphanie de Mônaco.

Entre as participações, temos também um velho parceiro de Jackson dando as caras de Dangerous. Trata-se do guitarrista Paul Jackson Jr., que é responsável pelo solo de guitarra no início de “Why You Wanna Trip on Me”. Além do já citado Slash, nomes como o rapper Heavy D (participa em “Jam”), o baixista Louis Johnson (que toca em “Who Is It”), o grupo Wreckx-n-Effect (aparece em “She Drives Me Wild”) e o cantor gospel Andraé Crouch (participa em “Keep the Faith”) também fazem parte do grande time de músicos envolvidos no álbum.

Voltando as faixas, Dangerous também aposta forte nas baladas sensíveis para ganhar o grande público e todas elas aparecem em sequência na segunda parte do álbum. A primeira delas é a clássica “Heal the World”, a primeira amostra de que Michael Jackson queria salvar o planeta para fazer dele um mundo melhor para as crianças. Ainda que seja bem produzida, a música marca o começo de uma fase amada por muitos e odiada por outros onde Michael dedicaria um bom tempo da sua vida em baladas sem a mesma qualidade de antes, como “Earth Song” e “You Are Not Alone”, que sairiam anos depois.

Além de pedir para o povo curar o mundo, Michael usa as baladas para falar sobre desilusões amorosas e também para mostrar o seu desejo pelo outro. No primeiro tópico, temos a interessante “Who Is It” – que por um tempo foi a minha música preferida – enquanto no segundo se encaixa “Give In to Me”, que conta com a guitarra de Slash e tem uma sonoridade mais puxada para o hard rock, algo bem diferente na construção do álbum.

Em seus quase oito minutos, “Will You Be There” chama a atenção por toda a sua construção em torno de um piano e um coral lírico. Para muitos, a música é a melhor performance de Michael dentro do álbum e, ainda que outras músicas sejam mais importantes e mais impactantes, é difícil discordar. Vale lembrar também que a faixa entrou na trilha sonora de Free Willy, o que ajudou a torná-la ainda mais conhecida.

Outro destaque dentro das baladas fica por conta de “Keep the Faith”, que conta com uma letra positiva e que fala sobre a religiosidade, abraçando as raízes R&B de Michael, mesclando isso com elementos eletrônicos que, ao contrário das demais faixas do álbum, aparecem mais suavizados ao longo da canção.

Estreando no topo da Billboard 200, Dangerous contou uma uma divulgação massiva na TV, com direito a contrato com a FOX para a exibição de todos os clipes, além de canais tradicionais de música como a MTV ou a VH1.

O primeiro dos clipes lançados foi o de “Black Or White” com os seus onze minutos de duração. A produção foi exibida no dia 14 de novembro de 1991 e alcançou um público de mais de 500 milhões de pessoas em vinte e sete países. O vídeo ainda causou polêmica por contar com cerca de quatro minutos nos quais Michael Jackson aparecia praticando atos de vandalismo e ajudou a alavancar as vendas do álbum, que ultrapassou a casa das 30 milhões de cópias vendidas em todo o mundo.

O álbum também rendeu uma turnê mundial – a única que passou pelo Brasil – com 69 apresentações realizadas entre junho de 92 e novembro de 93. Considerada a maior turnê musical na época, Michael rodou o mundo com dois Boeing 747 para carregar as quase 100 toneladas de equipamentos.

Com shows esgotados em todas as cidades, Michael arrastou públicos impressionantes ao longo da turnê. Em uma única apresentação na França, o público presente no Vélodrome de Vincennes (Paris) foi de 125 mil pessoas, enquanto as datas finais da turnê, realizadas no México, reuniram 500 mil pessoas. No Brasil, o público total que compareceu no Morumbi foi de 210 mil pessoas, divididas nos dois dias de apresentação.

A turnê também se destaca por um conceito inicial de residência em uma cidade que se tornou tão comum nos dias atuais quando Michael realizou oito apresentações seguidas em Tokyo, sendo a última delas no último dia de 1992. Vale lembrar também que um dos shows da turnê acabou se transformando em um especial da HBO e, posteriormente, lançado em DVD. A apresentação realizada em Bucareste, na Romênia, reuniu um público de 100 mil pessoas no Estádio Lia Manoliu.

A era Dangerous ficou marcada também pela apresentação no intervalo do SuperBowl realizada em janeiro de 1993, as apresentações no American Music Awards e no Grammy, onde ele recebeu Legend Award das mãos de sua irmã Janet Jackson, além da entrevista com a Oprah Winfrey e, claro, a primeira acusação de abuso sexual.

Na época de seu lançamento, a Rolling Stone americana classificou o álbum como um “triunfo… que não se esconde dos medos e contradições de uma vida inteira passada sob os holofotes… apesar da imagem de Peter Pan, fora do palco, a melhor música e dança de Jackson é sempre sexualmente carregada, tensa, envolvente — ele está na melhor compreensão dele, quando ele realmente é perigoso”. Talvez, essa seja a forma mais direta de se analisar o que o Dangerous representou para Michael Jackson e, sobretudo, para a música pop. É nele que o músico diz mais de si, escancarando os seus dilemas pessoais, se mostrando vulnerável mas, ao mesmo tempo, capaz de responder na mesma moeda.

Hoje é fácil afirmar que o Dangerous se tornou um dos álbuns mais influentes da música. Muito do que surgiu naquela década se deve a mistura de R&B, rap e música eletrônica ao pop promovida por Michael ao longo dos 77 minutos do álbum, sobretudo se a gente analisar a “fórmula do sucesso” desenvolvida dentro das produções do pop após o seu lançamento.

Ainda que o amor por Quincy Jones fosse grande, Michael precisava de autonomia completa para dar o seu próximo passo e, analisando tudo o que aconteceu na música pop depois disso, a decisão foi mais do que acertada.

Michael Jackson – Dangerous

Lançamento: 26 de novembro de 1991
Gravadora: EPIC/Sony Music
Gênero: Pop/R&B/dance/hip-hop/rap/rock/gospel
Produção: Michael Jackson, Teddy Riley, Bruce Swedien e Bill Bottrell

Faixas:
01. Jam (feat. Heavy D)
02. Why You Wanna Trip on Me
03. In the Closet (feat. Princess Stéphanie of Monaco)
04. She Drives Me Wild (feat. Wreckx-n-Effect)
05. Remember the Time
06. Can’t Let Her Get Away
07. Heal the World
08. Black or White (feat. L.T.B.)
09. Who Is It
10. Give In to Me (feat. Slash)
11. Will You Be There
12. Keep the Faith (feat. Andraé Crouch)
13. Gone Too Soon
14. Dangerous

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