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Além do Som: de Mickey Gang para We Are Pirates, o fenômeno musical de Colatina

Houve uma época da minha vida em que eu e um primo costumávamos, sempre que possível, ir ao cinema para matar o tempo. Uma dessas várias sessões que frequentamos no período, tornou-se especial pra mim.

Estávamos em São Paulo e decidimos encarar o filme Muita Calma Nessa Hora. Confesso que o enredo não estava me agradando muito, embora houvesse algumas cenas cômicas que, de maneira geral, renderam-me uma boa dose de diversão e alguns risos. Porém, foi durante as cenas finais que o filme me proporcionou uma surpresa muito positiva que fez com que o ingresso realmente tivesse valido a pena.

A história estava prestes a se encerrar, as soluções da trama já estavam postuladas, quando, de repente, uma animada música passou a acompanhar algumas imagens e, a cada segundo que se passava enquanto o som tocava, fui me envolvendo cada vez mais naqueles curiosos e, até então, desconhecidos acordes. Aquele som me absorveu completamente e da melhor maneira possível.

Eu precisava descobrir o nome da banda que tocava aquela música e assim, saí da sala de cinema disposta a desvendar esse mistério. Uma coisa eu suponha: deveriam ser gringos dos anos 80, afinal, tratava-se de um som divertido e dançante, parecendo uma mistura de Pop com Indie e New Wave, sendo, enfim, diferente de grande parte das mesmices que me eram contemporâneas.

Voltei para a casa intrigada e, após algumas breves pesquisas na internet, percebi, para minha surpresa, que estava enganada: não eram gringos e não eram oitentistas, tratava-se de uma banda brasileira chamada Mickey Gang, formada em 2007. E durante essas pesquisas, percebi também que eu não era a única admiradora do grupo, pois eles já haviam até mesmo tocado em solos londrinos e feito enorme sucesso por lá! Agora que já descrevi como conheci o Mickey Gang, acho que devo apresentar melhor a banda e também penso que seja válido darmos alguns passos para trás, antes de Londres e antes da minha sessão de cinema. Voltemos, então, para o local em que tudo começou…

Mickey Gang. [Foto: Felix Van Gisbergen]

Colatina é uma cidade relativamente nova, não tem nem um século de existência. Localiza-se no Espírito Santo e possui pouco mais de cem mil habitantes. Foi neste pedaço de terra que a história do Mickey Gang começou a ser escrita quando quatro amigos – Arthur Marques, Bruno Moreira, Ricardo Vieira e João Paulo Dalla – decidiram formar uma banda com timbres legais.

Certamente você já conheceu várias histórias semelhantes, embora muitos enredos parecidos com este terminem sua jornada na garagem. Porém, com a banda capixaba, o desfecho foi outro. O Mickey Gang durou pouco, mas voou alto. Aliás, literalmente, pois este voo, conforme já escrevi acima, os levou, inclusive, para fora do país. Mencionei acima que estiveram em Londres e esta, definitivamente não é uma cidade qualquer. É o berço de grandes nomes da música, como The Beatles, Pink Floyd e o Led Zeppelin! Solo que foi chacoalhado pelo Punk Rock e de onde surgiram o Sex Pistols e o The Clash!! E mesmo carregando toda a essa história musical fantástica formulada por bandas que moldaram o Rock And Roll, Londres abraçou, valorizou e venerou os quatro meninos brasileiros que, inclusive, viraram pauta do renomado “The Guardian”. Acredite, isso não aconteceu à toa. Eles eram especiais. João Paulo contou que “o convite para fazermos um show na Inglaterra veio por e-mail e achamos que era um vírus, até recebermos as passagens e notarmos que a coisa era realmente séria”. O músico disse ainda, que foi um momento muito especial e surpreendente para a banda que pode conhecer pessoalmente um ambiente que sempre apreciaram e que sonhavam em visitar. E tem mais: durante essa pequena turnê, uma loja de discos chamada Pure Groove, através do selo 50bones Records, lançou um LP da banda (o primeiro e único). Ricardo se recorda, com entusiasmo: “Eles escutaram as músicas, gostaram e fizeram a proposta. Fechamos!! Vinil amarelo, 300 cópias. Todos foram vendidos!”.

Mas não foi apenas no exterior que os meninos conquistaram fãs e reconhecimento. O Brasil também os abraçou e tiveram apreciadores por aqui. Em 2009, a banda recebeu indicações no VMB, da MTV, e também no Prêmio Omelete Marginal. Além disso, foram manchete da Folha de São Paulo e de outras grandes mídias. Chegaram a gravar um videoclipe no apartamento de Arthur Marques para a música “I Was Born In The 90’s”. Trata-se de uma sequência de cenas que se passam em uma festa na qual um bando de jovens dança freneticamente. Alguns se drogam, outros se beijam, mas todos parecem alucinadamente felizes e empolgados ao som do Mickey Gang!

Na sequência dessa explosão de reconhecimento midiático nacional e internacional, durante um período de tempo um tanto breve, a banda continuou o seu trabalho. Contudo, em meados de 2010, enfrentou um momento de desgaste que culminou em seu fim.

Felizmente, nem tudo estava perdido, pois não muito tempo depois do final desse ciclo, uma nova história começou a ser escrita. Em novembro de 2011, Bruno Moreira, João Paulo Dalla e Ricardo Vieira deram início a um nosso projeto, o We Are Pirates, cuja sonoridade seguiu linhas diferentes do trabalho anterior.

As músicas do We Are Pirates possuem notável capricho técnico e são mais sofisticadas do que as do Mickey Gang. As letras também mudaram, tornaram-se mais reflexivas. João Paulo justificou a razão deste avanço, dizendo que “isso é questão da nossa verdade, do que éramos na época. Sempre fizemos a música que sabíamos tocar. É natural evoluir”. O primeiro EP do We Are Pirates, chamado Kids Practice, é extremamente potente e prazeroso. De maneira geral, as canções são vibrantes e balançam entre uma doçura sublime e curiosas melodias parcialmente psicodélicas. Não houve lançamento de material físico, o EP foi inteiramente disponibilizado em formato virtual. Aliás, este tem sido o único formato com o qual a banda tem trabalho, embora Ricardo Vieira confesse que já foram procurados por alguns selos que demonstraram possíveis pretensões de criar material físico. Parece que os meninos realmente preferem o clássico Punk método D.I.Y ou “faça você mesmo”.

O baixista Bruno Moreira deixou a banda após a concretização do Kids Practice. Desde então, o We Are Pirates sobrevive como um duo composto pelos dois outros membros. João Paulo Dalla e Ricardo Vieira dividem as gravações, as edições e mixagens e essa fórmula tem tido resultados eficientes.

We Are Pirates. [Foto: Rafael Brocco]

Alguns e certos autores que escreveram notas sobre o duo classificam-no como Indie. Perguntei aos meninos se eles se enquadram neste gênero e a resposta foi negativa. Eu preciso concordar com essa recusa e esteriótipo feita pelos membros da banda. Enquadramento musical costuma ser uma atitude clássica de romantismo jornalístico. Até porque, escutando as faixas com mais atenção, fica perceptível que eles produzem suas músicas de maneira espontânea, distanciando-se, assim, de possíveis pretensões de ter um produto final pautado em determinado gênero.

Em 2016, o We Are Pirates lançou o Golden Crimes, um EP com três faixas que que deixa evidente que a banda progride e impressiona cada vez mais e que demonstra que, definitivamente, eles não precisam de interferências mercadológicas para produzirem um trabalho qualificado. Os meninos realmente são talentosos e muito, muito criativos.

No início de 2017, a faixa “Happy Days” foi ar. É animada e o refrão é daqueles tipo que facilmente cola na cabeça do ouvinte. Essa lembra um pouquinho os tempos de Mickey Gang, mas com uma pitada de… We Are Pirates.