Capa do álbum 'Cosmo', de Cícero
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Review: Cícero – Cosmo

Imagine um movimento de expansão infinito acontecendo. Este movimento se incia em seu quarto, em um fim de semana qualquer. Há coisas acontecendo na praia, na cidade. Um constante fluxo de acontecimentos nas galáxias. A filosofia por trás de Cosmo poderia ser sobre isso: ser gigante em seus dias, mas um grão de areia frente à vastidão de nossa casa, o Universo.

Cícero traz mais um álbum intimista para fazer companhia em tempos de recolhimento. Como já indicado na capa, a atmosfera do disco paira na extensão do eu-lírico, suas particularidades enquadradas dentro da amplitude da vida e seus acontecimentos. Apatia, alegria, solidão, deslocamento do tempo ou de si são alguns dos sentimentos que perpassam pelas composições, transformando-as em uma extensão do álbum anterior, Cícero & Albatroz (2017).  De fato, o álbum é, também, um parente próximo de A Praia (2015) em momentos efusivos, mas há de agradar aqueles que sentem falta de um trabalho ainda mais introspectivo, caso do saudoso Sábado (2013).

“Falso Azul” traz sonoridade semelhante da canção “Fuga N° 3 da Rua Nestor” e “Capim Limão”, do segundo disco. Os versos lançam o ouvinte à deriva, bem como o coro de vozes de Beatriz Pessoa, Mari Milani e Leonor Arnaut. Canção expansiva que se desenrola devagar, apresenta a personalidade do trabalho: uma nova experimentação, mas mantendo a essência do artista.

Cícero segue trabalhando o minimalismo no decorrer das faixas, como nas faixas “Miradouro Nova Esperança”.  Entoando os versos É, são dias estranhos / Também não sei onde vai dar”, o artista aponta para tempos incertos, quase uma premonição do medo que se abateria pouco após o lançamento do disco. “O Que Ficou”, “Banzo” e a última faixa, “Nada ao Redor”, reforçam a ideia de tempo e espaço, de forma individual e existencialista.

Em contraposição à segunda metade do álbum, “Some Lazy Days”, “Às Luzes” e “Marinheiro Astronauta” têm um desenrolar mais apressado, em um resgate de sonoridade dos álbuns anteriores. Em meio a melodias mais animadas, Cícero evoca o romantismo, o vazio e grandiosidade do mínimo.

Por fim, o álbum dá o tom de calmaria em um momento conturbado. As composições, bem como os arranjos, levam a uma familiaridade do que já se passou. É, antes de mais nada, um registro da evolução do artista, cada vez mais sensível. Entretanto, Cosmo poderia ter sido mais: tamanha semelhança com seus trabalhos passados dão ao álbum uma sensação de incompleto. Talvez seja esta a intenção, afinal — tornar o álbum tão vasto quanto o próprio universo que Cícero se propõe a apresentar.

Cícero - Cosmo

Cícero – Cosmo

Lançamento: 16 de março de 2020
Gravadora: Independente
Gênero: Indie, MPB
Produção: Cícero

Faixas:
01. Falso Azul
02. Some Lazy Days
03. Esquinas
04. Às Luzes
05. Marinheiro Astronauta
06. Miradouro Nova Esperança
07. O Que Ficou
08. A Chuva
09. Banzo
10. Nada Ao Redor

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