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Review: John Ellis – Black Stone. White Stone.

Por: Juliana Vannucchi e Ricardo Santos

No final do mês de outubro, John Ellis – uma lenda atemporal do Punk Rock britânico – enviou-me o seu novo álbum intitulado Black Stone. White Stone, que é a oitava produção instrumental de sua próspera carreira solo.

Quando entrou em contato comigo, John disse que esse novo álbum era “estranho” e, assim que li essa palavra, meu interesse em escutá-lo foi imediato, já que geralmente me agrada bastante ouvir e conhecer músicas e/ou álbuns que são considerados desta forma. Gostei das músicas logo num primeiro contato e então decidi compartilhá-las com um amigo, o guitarrista e produtor Ricardo Santos (Downward Path), que imaginei que também aprovaria esse novo trabalho de John Ellis.

O Black Stone. White Stone faz parte de uma trilogia inspirada na cultura japonesa, da qual o primeiro álbum, intitulado Wabi Sabi 21©, lançado em 2009, é especialmente baseado na cerimônia japonesa do chá. O Black Stone. White Stone, por sua vez, tem seu título provindo de um jogo tradicional do Japão, chamado Go. Algumas das faixas que o compõe mencionam “Mr. O”, um personagem imaginário retratado ao longo das músicas, que narram parte de sua história de vida, baseada em solidão e tristeza e que apenas torna-se alegre nos momentos em que Mr. O joga Go. De maneira geral, essa nova produção lançada por John Ellis é bem envolvente.

O álbum abre com a belíssima “Kimigayo”, na qual encontramos um admirável dueto entre uma flauta tradicional do oriente com o ebow. Na sequência, vem “Mr. O Smokes a Cigarrete”, que nos remete à velha escola do industrial, trazendo um drone contínuo ao longo da faixa e que tem um piano tocado de forma percussiva, monótona e quase obsessiva, intercalando-se com um ebow ocasional. O loop de “Mr. O  Contemplates Fuji San From The Bullet Train” nos transporta para um cenário bucólico,  e ao escutá-la, é como se viajássemos em câmera lenta por uma memória há muito guardada.

“The Bowls Are Full But The Ban Is Empty”, lembra um pouco de Pink Floyd nos cenários do The Wall, enquanto o filtro sequenciado e repetitivo de “Deep Breathing To Aid Concentration” soa como Throbbing Gristle há muito tempo atrás. “Sanrensei” é a primeira faixa a trazer um pouco de virtuose ao álbum, apesar de focar no baixo e não na guitarra. “Fuseki” retoma a mistura de música tradicional oriental com o ebow construindo uma fusão interessante. A canção “Joseki” surge soando como um misto de country e música oriental, como se fosse uma trilha feita para um filme sobre viagens. “Mr. O Makes a Foolish Mistake” equilibra a sonoridade ao apresentar frases interessantes de guitarra/baixo fazendo uma “cama” para o ebow. “Haji” soa de uma maneira mais tradicional, com linhas de ehru permeando toda a faixa e abrindo espaço para uma guitarra e baixo com linhas mais rebuscadas. “Rainclouds Over Fuji San” soa como algo da 4AD em sua época áurea e talvez seja o ponto mais alto do álbum.

De maneira geral, do início ao fim, o álbum carrega um clima cinematográfico, e se assemelha a uma trilha sonora capaz de se adequar aos mais diversos momentos existências – desde os melancólicos, até os mais satisfatórios, fazendo com que, de certa forma, o próprio ouvinte assume o papel de Mr. O.

Em Black Stone. White Stone, a guitarra é quem dita os caminhos musicais e John me contou que tentou explorar o potencial de criatividade desse instrumento, tocando-o de uma maneira diferente do convencional através da qual se propôs a escapar da forma entediante como ela muitas vezes é tocada. Além disso, o músico contou que trabalhou em cima da ideia de como diferentes sons de guitarra poderiam ser usados juntos.

É preciso dizer que esse pano de fundo é interessante: a tentativa de se distanciar do tradicionalismo, de tocar de uma forma diferente do habitual, provém desde os primórdios da carreira musical de John Ellis, quando ele participou ativamente da cena punk britânica, fundando o The Vibrators através do qual, assim como fizeram outros grupos musicais da cena, buscou romper com padrões vigentes. No final das contas, a proposta do Black Stone. White Stone é igualmente “rebelde” e o resultado é bem satisfatório.

Em conjunto, o álbum soa de maneira muito concisa em sua proposta e oferece uma mistura interessante de música oriental com os drones gerados pelo ebow. Podemos dizer que este é um álbum indicado especialmente para guitarristas e/ou apreciadores desse instrumento e também, é claro, para ouvidos e corações que possuem afinidade com música experimental e/ou que estejam cansados de clichês e busquem algo a mais.

John Ellis – Black Stone. White Stone.

Lançamento: 10 de Outubro de 2019
Gravadora: Chanoyu Records
Gênero: Instrumental
Produção: John Ellis

Faixas:
01. Kimigayo
02. Mr O takes a taxi to the station at Chiyoda.
03. Mr O smokes a cigarette
04. Mr O contemplates Fuji-san from the bullet train
05. The bowls are full but the Ban is empty
06. Deep breathing to aid concentration
07. Sanrensei
08. Fuseki
09. Joseki
10. Mr O makes a foolish mistake
11. Haji
12. Rainclouds over Fuji-san

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