Reviews

Review: Angel Olsen – All Mirrors

Esse ano tem sido incrível quando tratamos de artistas mulheres. Cantoras como Lana Del Rey e Sharon Van Etten lançaram ótimos discos, apostando em uma sonoridade que une grandiosidade e intimismo. Agora, Angel Olsen é mais uma que percorre esse caminho; após se destacar com Burn Your Fire For No Witness (2014) e explodir com My Woman (2016), ela acaba de lançar All Mirrors, seu novo registro de estúdio.

O álbum acompanha mudanças na vida de Angel desde a sua aclamação em 2016, consequência do intenso ritmo de turnês desde então, e que a mesma abordou em uma entrevista para a THE FADER. Por esse motivo, ao contrário de BYFFNW e My Woman, em que a narrativa e a proposta das faixas eram ser universais, apresentando as vivências de ser uma mulher na nossa sociedade, All Mirrors mostra uma perspectiva mais individual de Olsen. Mesmo com algumas composições não sendo exatamente sobre ela, existe uma carga emocional que a cantora tentou resgatar desse período de fama, colocando-a em prática no trabalho. Para alcançar isso, ela contou com a colaboração do incrível John Congleton, produtor de Burn Your Fire For No Witness, e que também já colaborou com nomes como Swans e St. Vincent.

A primeira coisa que se pode destacar de All Mirrors é como fica clara a transformação de Angel como artista, algo que se relaciona com a sua personalidade: antes tímida, hoje a artista transparece e abraça um lado divino, e que passa tanto pelas melodias de suas canções, lembrando em alguns momentos Kate Bush, como no seu próprio vocal, cada vez mais solto e cheio de variações. E apesar das comparações naturais com Bush, ela consegue ter uma identidade própria, soando como única. Essa mudança soa mais que natural, já que Olsen acaba de completar 32 anos e cerca de uma década de carreira.

Com isso, fica mais fácil entender as nuances que as composições carregam; “Lark”, um dos singles e faixa de abertura, expõe algo que é comum: a consciência de que uma relação (seja ela amorosa ou de amizade) já não tem mais o mesmo significado, e você precisa lidar com essa situação (“Toda vez que eu me viro a você/Eu vejo o passado, é tudo o que resta”, ela diz em um dos versos). Tudo isso ganha força com a sonoridade imponente, cheia de sintetizadores e arranjos de piano que materializam emoção.

Uma das coisas mais atrativas em relação às músicas do álbum é como elas se relacionam em si mesmas, denotando um aspecto bastante humano das faixas; mais do que isso, as canções exalam maturidade. “Spring”, inspirada em uma amiga de Olsen que trabalhava em uma banda, mas que se afastou disso por outras responsabilidades, fala exatamente sobre como às vezes precisamos mudar os nossos planos e assumir outras obrigações. “Tonight”, com a forte presença do violoncelo e do violino, gera um dos momentos mais bonitos do disco, em que Angel cita o gosto por ficar sozinha; “Eu gosto do ar que eu respiro/Eu gosto das reflexões que eu penso/Eu gosto da vida que eu interpreto”, ela diz.

E assim como a vida, All Mirrors tem os seus altos e baixos; a tentativa de criar algo épico às vezes torna tudo um pouco exaustivo; nesse sentido, o destaque negativo vai pra faixa que leva o título do álbum, que ao contrário de “Lark”, passa do ponto nisso. De qualquer maneira, o restante é compensado com melodias que conseguem equilibrar de forma mais acertada simplicidade e ao mesmo tempo grandiosidade; “New Love Cassette” e “Endgame” são perfeitas quando analisamos essa estrutura.

Com o seu novo trabalho, Angel consegue expressar uma nova faceta sem assustar quem já conhece o seu talento; na verdade, ao explorar novos horizontes musicais, ela confirma ser uma das mais talentosas artistas dessa década, colocando mais um álbum impecável na sua discografia. Além disso, ao entregar All Mirrors, Angel Olsen demonstra entender as dores e as complicações das relações da nossa existência. Um disco que sem dúvida merece ser ouvido, e que com certeza irá tocar você.

Angel Olsen – All Mirrors

Lançamento: 04 de Outubro de 2019
Gravadora: Jagjaguwar
Gênero: Alternativo, Indie
Produção: Angel Olsen & John Congleton

Faixas:
01. Lark
02. All Mirrors
03. Too Easy
04. New Love Cassette
05. Spring
06. What It Is
07. Impasse
08. Tonight
09. Summer
10. Endgame
11. Chance

Comentários