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Review: Thiago Pethit – Mal Dos Trópicos (Queda e Ascensão de Orfeu da Consolação)

Thiago Pethit é conhecido por sempre reinventar sua imagem e composições. Oferece uma nova faceta a cada disco. Depois do explosivo Rock’n’Roll Sugar Darling, esperávamos que Pethit se apresentaria com uma nova marcante personalidade. Entre a contemporaneidade do país tropical e os antigos contos gregos, nasce Mal Dos Trópicos (Queda e Ascensão de Orfeu da Consolação).

O álbum pode ser considerado um antagonista do seu antecessor, que propunha uma pegada sexy em suas canções de rock’n’roll. Em oposição ao mito de Orfeu, que desce ao mundo inferior para buscar sua amada Eurídice, o paulistano caminha pelas ruas fugindo de (ou confrontando) fantasmas, um amor que já se foi.

Com a produção de Diego Strausz, Pethit passa pelo trip-hop, jazz e até mesmo se aventura pela bossa nova. Tudo acompanhado de uma orquestra. Ao longo da estrada percorrida pelo cantor, o amadurecimento é notório — as referências são excelentes e bem pesquisadas.

Thiago não perde sua essência, apesar de sua diversidade. O álbum é extremamente bem produzido e coeso, mais uma parte do artista entregue ao público.

O álbum

Mal dos Trópicos começa grande: “Abre-alas”, música que abre o disco, anuncia uma história cinematográfica, épica. Talvez ali haja menções diretas ao personagem mitológico com ponte para a contemporaneidade. O clima denso prepara o ouvinte para a segunda faixa, “Noite Vazia”. Nesta, o arranjo conduz a um ciclo labiríntico onde a angústia prevalece. A solidão é pronunciada nos versos Eu sou a sombra / Eu sou a dobra / Eu sou um labirinto vivo…, se repetindo em Se você vier ao fim do dia / Tente não me deixar só.

O mesmo acontece em “Me Destrói”. Comparativamente mais animada que a segunda faixa, possui uma linha de baixo alá anos 90 (soando até como trilha de videogame), porém a composição trai a melodia. O eu lírico denuncia sua solidão nos versos Você não vai voltar / A ser meu bem / Voltar, voltar. Em alguns momentos é conformista, em outros parece apenas perdido, mas sempre confirma seu abandono.

“Orfeu” é o ponto alto do álbum. É ali onde o personagem mitológico se encontra com o seu eu moderno, preso entre o pedido e o lamento. O piano aumenta a amplitude de dor do eu lírico, criando uma belíssima composição que também se alterna entre a antiguidade e o presente nos versos Meu desejo é festa pagã / Quando eu te beijo no Copan, que contém uma curiosidade sobre o edifício paulista. Uma das poucas músicas onde o poeta se entrega ao romantismo em uma narrativa menos individual. Por sua vez, o videoclipe apresenta de forma concisa a solidão na cidade de São Paulo.

“Teu Homem” segue o mesmo caminho da quarta faixa, sendo uma música com narrativa política mais evidente. Não seria curioso em anos tão conturbados para a comunidade artística, ressaltar as dificuldades em suas estrofes? Pethit o faz sem perder a sentimentalidade. Entretanto, o eu lírico reconhece o egocentrismo ao colocar o amor acima das trivialidades da destruição: Mas tudo aquilo que eu desejo / O mundo inteiro no teu beijo / É raso e só demais feito Narciso. Em contraponto à voz e violão leves, “Rio” pesa corações numa outra história de perda, onde é possível sentir Caronte levando as lembranças do poeta para além do Rio Estige.

Mais descritiva que as demais, “Mal dos Trópicos” por fim finaliza os cenários da capital paulista que o cantor se propõe a apresentar. Ali finaliza o terceiro e último ato do Orfeu tropical, quando uma tribo de garotos nus — em referência a Bacantes — o devoram, para que assim ele renasça, assim como Dionísio. É uma história de amor e maldição, onde o personagem volta, luta e chora até, por fim, se resignar ao perder, bem como o herói grego: Segue o meu cantar de gozo e dor / Na manhã, tão bonita manhã / Segue o meu cantar de gozo e dor / Ao olhar para trás você nunca mais. As declamações nas faixas 5 e 8 fortalecem a sensação de imersão nas aventuras do personagem.

A potência do álbum dá uma pausa em “Nature Boy”. Cantando acapella, a bela voz de Thiago – em conjunto com o incrível coral que o acompanha — não foi suficiente para que a canção não se tornasse “menor” que suas irmãs. Ainda assim, uma versão extremamente válida da canção.

“Samba de Orfeu” fecha o disco com chave de ouro e firma as raízes do álbum em terras tropicais, finalizando o ato de uma forma digna das epopeias gregas.

Impressões

Diferente de seus antecessores, Mal dos Trópicos é um álbum mais brasileiro, completo de referências sonoras e descritivas ao longo da obra. Atesta, também, o amadurecimento do artista desde seu debut Berlim, Texas. Sendo um álbum que não há semelhantes (pelo menos na última década no Brasil), Diego Strausz acertou em suas colocações, e arranjos, encaixando a música clássica num espaço onde se é comum, e ao mesmo tempo não. Tendo apresentado um trabalho que se desvencilha dos antecessores, abriu-se um precedente para que Thiago Pethit possa testar mais e mais e se espalhar nos trabalhos seguintes.

Mal dos Trópicos é um álbum impecável que por detrás, tem um fortíssimo manifesto político: o sexo e romance que confrontam a heteronormatividade. Por fim, um álbum digno de teatros e que será devorado por fãs durante muitos anos.

Thiago Pethit
Mal dos Trópicos (Queda e Ascensão de Orfeu da Consolação)

Thiago Pethit – Mal Dos Trópicos (Queda e Ascensão do Orfeu da Consolação)

Lançamento: 15 de março de 2019
Gravadora: Tratore
Gênero: Indie, MPB
Produção: Diego Strausz

Faixas:
01. Abre-Alas
02. Noite Vazia
03. Me Destrói
04. Orfeu
05. Teu Homem
06. Rio
07. Nature Boy
08. Mal dos Trópicos
09. Samba de Orfeu (Mal dos Trópicos)

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