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Review: Michael Jackson – Thriller

No final de 1982, três anos depois de lançar seu primeiro disco fora da sombra do pai e do Jackson 5, Michael Jackson lançou o registro que de fato mudou sua carreira para sempre: Thriller.

O álbum, 6º lançamento solo de Michael, provou de uma vez por todas que ele era um artista completo, de altíssimo nível, sendo um excelente cantor, dançarino, compositor e produtor. Thriller acabou se tornando o disco mais vendido nos Estados Unidos desde o seu lançamento estrondoso até agosto de 2018, quando as vendas da coletânea Greatest Hits, dos Eagles, tomaram o topo da lista ultrapassando o recorde pela primeira vez.

Novamente trabalhando com Quincy Jones, dessa vez Michael parecia estar ainda mais motivado, com sangue nos olhos mesmo, disposto a provar seu valor para quem ainda ousou duvidar dele após o Off The Wall – o que inclui, infelizmente, sua própria família. Afinal, era a segunda vez que ele fazia um disco estando no controle e, no anterior, ele chegou a chorar por ganhar “apenas” um Grammy. Deu certo: o disco é considerado sua obra prima e, além de ficar 36 anos no topo da lista de mais vendidos com mais de 51 milhões de cópias mundialmente (mais que o dobro de Off The Wall), tendo até entrado no livro de recordes Guinness, Thriller recebeu 8 prêmios Grammy, incluindo Álbum do Ano, 8 American Music Awards, 3 MTV Video Music Awards, e teve todos os seus 7 singles de trabalho no Top 10 da Billboard. O mais impressionante é que tudo isso aconteceu quando Michael tinha apenas 24 anos (e já acumulava 13 anos de carreira como cantor profissional!).

O álbum

Mas, além do sucesso comercial e da superação pessoal, Thriller é um disco especial porque trouxe mudanças importantes para o mundo da música. A começar pela quebra de barreiras.

Em primeiro lugar, Michael Jackson conseguiu juntar música negra e branca sem distinção, o que ainda era polêmico e bem dividido nos EUA naquela época. A parceria com Paul McCartney continuou, agora com um dueto. No disco anterior, Michael gravou uma música que Sir Paul escreveu especialmente para ele e que também acabou sendo lançada pelos Wings antes (“Girlfriend”), mas agora os dois apareciam cantando juntos na balada romântica “The Girl Is Mine” – que foi escrita pelo próprio Michael. E, se Off The Wall era a cara dos anos de 1970, marcado por música disco e o baixo pesado de Louis Johnson, Thriller pesava nas guitarras elétricas do rock’n’roll nervoso de Eddie Van Halen, nos sintetizadores que já representavam os anos 80, músicas mais agressivas e enérgicas. Era afrontoso, seguro e firme. Foi revolucionário misturar rock, predominantemente branco, com pop e música negra (soul, R&B, funk). Michael também quebrou o preconceito na televisão se tornando rei absoluto da MTV, em uma época em que negros não tinham visibilidade – mas isso vamos explicar mais para frente.

As gravações de Thriller aconteceram no estúdio Westlake Recording, em Los Angeles, de abril a novembro de 1982, com um orçamento de 750 mil dólares bancado por Quincy Jones (e que foi recuperado rapidinho). Oito meses de trabalho duro para fazer o disco perfeito, com Jones e Jackson mexendo em trinta canções para no final só 9 entrarem no álbum. Curiosamente, a primeira música a ser gravada foi o dueto com McCartney. A banda Toto, que ficou famosa com a música “Africa”, também teve vários de seus integrantes tocando em Thriller. Quatro faixas do disco foram escritas e co-produzidas por Michael: “Wanna Be Startin’ Somethin'”, “The Girl Is Mine”, “Beat It” e “Billie Jean”, que virou seu maior sucesso nos EUA, liderando a tabela Billboard Hot 100 por sete semanas consecutivas. Tirando o dueto com Paul, as outras três canções compostas por Michael são as mais incisivas do disco, e pode apostar que não foi à toa.

O clipe que mudou o mundo

Com quase 14 minutos de duração, “Thriller” é um curta-metragem caprichado, e não apenas um clipe. O vídeo revolucionou a indústria audiovisual e influenciou artistas de todos os gêneros musicais a se desafiarem e fazerem clipes mais produzidos, com roteiro e visual mais cuidado e rico. Em 2018, o videoclipe de “Thriller” completou 35 anos (!) e é tão icônico que, até hoje, as pessoas se lembram da coreografia e do figurino e a obra virou referência na cultura pop e no imaginário popular, sendo citada em muitos filmes, seriados, programas de TV, outros clipes, editoriais de revistas etc. O diretor foi John Landis, que fez o filme cult “Os irmãos cara de pau” (The Blues Brothers) em 1980 e o terror/comédia “Um Lobisomem Americano em Londres” em 1981.

O filme conta a história de um casal que fica sem gasolina no meio da estrada, tem de descer do carro e vagar pela mata. É aí que o mocinho, Michael, vira um lobisomem. Com essa temática de filme de terror, imagens de cemitério e outras coisas mais “dark”, Michael logo tratou de botar um comunicado antes do começo do clipe dizendo: “devido às minhas fortes convicções pessoais, eu gostaria de enfatizar que esse filme não endossa, de maneira alguma, uma crença no ocultismo”. Afinal, evitar polêmica e dor de cabeça nunca é demais, não é mesmo?

O sucesso estrondoso do clipe de “Thriller”, que se tornou um fenômeno mundial, também abriu caminhos para outros artistas negros, já que o clipe passava sem parar na MTV. Antes disso, os negros tinham pouquíssima visibilidade na TV. Os clipes de “Billie Jean” e “Beat It” também receberam muita exposição e fizeram grande sucesso, jogando o foco da MTV para a música pop e abrindo portas para o Prince, por exemplo. Michael Jackson foi pioneiro em lançar videoclipes superproduzidos e caros, com participação de famosos, cenários, roteiros bacanas e mais complexos, efeitos especiais, coreografias incríveis, atuação de fato, fotografia, visual. E depois disso o mundo nunca mais foi o mesmo.

O legado abalado

Hoje a morte de Michael Jackson completa 10 anos, o famoso clipe de “Thriller” passou dos 35 e o disco já tem quase 37, mas ainda continua relevante e vendendo em média 100 mil cópias por ano só nos EUA. É inegável a importância que essa obra teve na cultura mundial e em toda a indústria da música e do cinema, influenciando diversos artistas e toda a produção de videoclipes dali em diante. Também não tem como questionar a qualidade do trabalho de Michael em “Thriller”.

No entanto, apesar de ser um dos melhores artistas de todos os tempos, ser famoso no mundo inteiro e ter até hoje uma legião de fãs, sua reputação e seu legado seguem abalados pelas denúncias de pedofilia. Os boatos já eram conhecidos do público porque Michael já havia sido acusado em 1993 e 2003. As duas acusações foram arquivadas por falta de provas. Agora, em fevereiro de 2019, a HBO lançou o documentário “Leaving Neverland”, com depoimentos de dois homens na casa dos 30 anos afirmando que, quando eram crianças, foram abusados sexualmente por Michael – que estava no auge de seu estrelato. Muita gente tem rebatido o documentário, dizendo que é mentiroso e sensacionalista, mas ele mexeu de fato com a imagem de Michael e recebeu muita atenção.

Além disso, ainda hoje todas as mudanças físicas dele continuam sendo muito controversas, principalmente a mudança da cor de sua pele e as plásticas excessivas no nariz, que sempre foram muito criticadas. Comparando as capas de Off The Wall e Thriller, já dá para perceber uma mudança:

No entanto, ele realmente sofria de Vitiligo, doença que provoca manchas claras na pele e pode se espalhar por todo o corpo, e sua primeira rinoplastia foi feita após ter quebrado o nariz, deu problema e teve de ser refeita, já que ele não respirava bem. Mesmo assim, é muito possível que Michael tivesse problemas de autoestima e perseguisse um padrão irreal de beleza, tendo exagerado nas plásticas, na maquiagem, no controle de peso, chegando a ficar magro demais (em busca do “corpo de bailarino”), e também exagerando nos remédios por conta de problemas de saúde mental. Ele também tinha Lupus, uma doença reumática auto-imune. Tendo tido uma infância problemática, uma péssima relação com o pai e uma juventude mergulhada em fama, sempre muito exposto e solitário, é bem possível que Michael fosse apenas um cara perdido, cheio de mágoas e problemas. Também pode ser que as denúncias sejam verdade e que ele tenha sim cometido crimes horríveis. Por enquanto, não temos como saber com certeza.

Michael Jackson – Thriller

Lançamento: 30 de novembro de 1982
Gravadora: Epic Records
Gênero: Disco/Pop/Funk/R&B/Rock/Soul
Produção: Quincy Jones e Michael Jackson

Faixas:
01. Wanna Be Startin’ Somethin’
02. Baby Be Mine
03. The Girl Is Mine
04. Thriller
05. Beat It
06. Billie Jean
07. Human Nature
08. P.Y.T. (Pretty Young Thing)
09. The Lady In My Life

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