Você provavelmente conhece alguém que está completamente obcecado por algum artista da América Latina — isso quando você mesmo não é o obcecado da vez. Esse sentimento tem ficado ainda mais forte com a expectativa em torno da turnê Debí Tirar Más Fotos, do Bad Bunny, que chega este mês ao Brasil.
Mas isso vai muito além do Benito ou de um álbum específico. A manifestação de orgulho em ser latino tem se intensificado a partir do reconhecimento da própria história, do interesse por outros gêneros musicais e do momento socioeconômico e político que atravessamos. E não sou eu quem diz isso: segundo a WGSN, empresa especializada em tendências, vivemos um “renascimento latino” — entendido como um momento cultural em que a latinidade vem redefinindo padrões de consumo global.
Mas por que esse consumo se intensificou? E, olhando para o Brasil, por que o interesse por artistas como Bad Bunny, Karol G, Kali Uchis, Peso Pluma, entre outros, parece ter crescido tanto nos últimos anos?

Por que o interesse por artistas como Bad Bunny, Karol G, Kali Uchis, Peso Pluma, entre outros, parece ter crescido tanto nos últimos anos? A proposta deste texto não é exatamente responder a essas perguntas — cujas respostas talvez sejam até óbvias —, mas refletir e exaltar tudo o que a América Latina tem produzido culturalmente.
Ser latino é legal há muito tempo
Antes de entrar nos fatores que ajudam a explicar por que a América Latina tem ditado alguns dos movimentos mais interessantes da música atual, é importante lembrar que, mesmo com um recorte restrito a este século, já tivemos nomes fundamentais para a consolidação desse reconhecimento global.
Antes do megahit “Despacito” (2017), Daddy Yankee já conquistava o mundo com “Gasolina” (2004). E, apesar de soar exagerada sua declaração de 2020, quando afirmou que “carregava o reggaeton nas costas” naquele período, esse momento foi, de fato, essencial para projetar a cultura latina em escala global.
Falando em “Despacito”, vale também ressaltar Luis Fonsi, que em 2008 já figurava nas paradas internacionais com a balada “No Me Doy por Vencido”.
Aqui no Brasil, nomes como Shakira e o RBD — muito impulsionados pela forte presença no audiovisual — sempre cativaram o público e alcançaram reconhecimento global.
Ainda assim, se esses artistas ajudaram a elevar a cultura latina na virada do século e ao longo dos anos 2010, por que só agora parece que o brasileiro abraçou de vez a latinidade, enquanto o restante da região passou a ocupar um lugar central na cultura pop? Como já antecipei, os motivos vão muito além da música em si — e passam, necessariamente, por fatores sociais e políticos.
A música latina como ato político
A intensificação de discursos e práticas imperialistas por parte dos Estados Unidos ocorre justamente em um momento em que a cultura latina se fortalece como uma forma de soft power. Nesse contexto, ouvir artistas latinos também se torna um gesto político.
Quando um artista do tamanho de Bad Bunny lança uma capa repleta de elementos facilmente associáveis a diferentes países da América Latina, torna-se difícil não estimular um senso coletivo de pertencimento.

A capa (já lendária) de Debí Tirar Más Fotos.
Além disso, a latinidade entra na esfera política a partir de uma perspectiva identitária: 76% das pessoas da região, segundo o mesmo relatório da WGSN, acreditam que ser latino diz muito sobre quem elas são.
No Brasil, pesquisas recentes indicam um medo difuso de instabilidade política semelhante ao que ocorreu na Venezuela. Esse cenário tende a fortalecer sentimentos nacionalistas e identitários, que acabam se refletindo também no consumo cultural.
Em um mundo cada vez mais colapsado, agarrar-se às identidades locais parece — e é — uma resposta lógica.
O papel da tecnologia no protagonismo latino
A cultura latina que hoje circula globalmente e se fortalece dentro da própria região também é impulsionada pela tecnologia — não apenas pelas redes sociais ou pelo engajamento digital, mas pelo crescimento do mercado eletrônico em diferentes frentes na América Latina.
A urbanização acelerada e o acesso cada vez mais amplo à tecnologia permitem que a periferia e a cultura underground dos países da região se expressem com mais autonomia e alcance.
Não à toa, gêneros como o funk, o rock experimental, a guaracha e o próprio reggaeton se beneficiam diretamente desse cenário. Um bom exemplo disso é a curadoria recente da Rinse FM, na qual não é difícil encontrar nomes da América do Sul/Latina, evidenciando como esse acesso tecnológico tem feito com que a música eletrônica da região dite tendências em clubs e festivais ao redor do mundo.
Fato é que o acesso à tecnologia fez com que gêneros locais passassem a refletir, de forma ainda mais evidente, a identidade latina: maximalista, híbrida, cheia de contrastes e nuances — reforçando, mais uma vez, o sentimento de pertencimento.
Isso não tem nada a ver com os gringos
O terceiro ponto fundamental para o florescimento desse orgulho latino talvez seja sua expressão mais genuína: a ausência da necessidade de validação externa.
Quando Bad Bunny se recusa a dar entrevistas em inglês, mesmo sendo fluente na língua, ou deixa de priorizar o mercado dos Estados Unidos em sua comunicação e estratégia de turnês, ele envia um recado claro: não é preciso que os gringos me entendam — o que importa, aqui, é o meu povo.
Não precisamos de grandes premiações internacionais para nutrir carinho por Karol G ou por CA7RIEL & Paco Amoroso, que fizeram mais de um show no Brasil em um intervalo de dois anos, todos com bom público.

Karol G com Pabllo Vittar na turnê de ‘Manaña Será Bonito’, em 2024. (Lucas Ramos/Brazil News)
O próprio Bad Bunny, inclusive, já declarou diversas vezes sua ansiedade em se apresentar em terras brasileiras pela primeira vez, como se este fosse um dos territórios mais importantes a conquistar — um tipo de validação que, de fato, importa.
Tudo isso fala menos sobre reconhecimento externo e muito mais sobre pertencimento.
A onda latina só começou
Em meio à crescente pressão de países imperialistas sobre o Sul Global, a tendência parece clara: veremos cada vez mais latinos ocupando o topo de quem realmente importa — os próprios latinos.
Ritmos como guaracha, dembow e cúmbia tendem a ser cada vez mais discutidos, cantados e compartilhados na internet.
Do lado de cá, como brasileiro, acredito que essa influência se manifestará sobretudo no underground, como já ocorre na música eletrônica. Ao mesmo tempo, espero que artistas de maior alcance também se inspirem nesse movimento de autonomia cultural para construir identidades musicais que dialoguem mais profundamente com os países vizinhos. De toda forma, nomes como Anitta, Pabllo Vittar, João Gomes, Ludmilla, Gaby Amarantos, Marina Sena e Liniker já parecem ter entendido o momento, bebendo dessas influências e exportando suas culturas locais de maneira autêntica.
Mais do que nunca, gracias a Dios nasci em Latinoamérica.

