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Review: Tame Impala – The Slow Rush

O tempo traz consigo mudanças que nos transformam como um todo, fazendo com que sempre sejamos novas pessoas. Nesse sentido, poucos projetos ligados à música poderiam abordar esse assunto com tanta propriedade como o Tame Impala; em seu novo e quarto álbum de estúdio, The Slow Rush, a “banda de um homem só” do australiano Kevin Parker reflete sobre as consequências do passado e a ansiedade pelo futuro, além das alterações que esses ciclos acarretam. Muito propicio para um músico que, independente da qualidade, sempre entrega trabalhos distintos um do outro, que refletem momentos da sua vida.

Muita coisa aconteceu para Kevin/Tame Impala desde o seu último disco lançado, Currents (2015); na sua vida pessoal, Parker casou, evento que também é abordado em The Slow Rush; profissionalmente, o multi-instrumentista/produtor seguiu intensamente na ativa, trabalhando com artistas do calibre de A$AP Rocky, Lady GaGa e Travis Scott.

E isso não ocorreu à toa: Currents, ao mesmo tempo que afastou fãs mais antigos pela sua sonoridade mais pop, conquistou o público mainstream, algo que com certeza foi notado pelos grandes nomes e que trouxe reconhecimento ao australiano. Até por isso, The Slow Rush era uma grande incógnita em relação a qual caminho sonoro o Tame Impala iria seguir.

Kevin Parker e Travis Scott em parceria no estúdio: essa foi apenas uma das colaborações do australiano durante o hiato do Tame Impala. [Créditos: Rap Direct (Twitter)]

Esses acontecimentos moldaram o novo disco e se juntaram às já conhecidas referências dos anos 60/70 que sempre fizeram parte da vida de Kevin. O mesmo afirmou em entrevista que uma de suas bandas favoritas dessa época, o Supertramp, foi de grande influência na construção sonora de The Slow Rush. Além disso, especialmente se comparado à Currents, o álbum resgata um pouco da psicodelia presente nos registros mais antigos do Tame Impala, Innerspeaker (2010) e Lonerism (2012), literalmente fundindo o passado e o futuro, assim como o conceito do trabalho.

Na primeira metade do trabalho, Kevin acerta em cheio; “One More Year” abre o álbum com camadas de sintetizadores e beats dançantes, flertando com o house. A letra é belíssima, com Parker passando a mensagem sobre aproveitarmos a vida em sua plenitude (“Mais um ano/De viver como o espírito livre que eu quero ser”), ele diz em um dos versos. A sequência “Instant Destiny“/”Borderline” é sem dúvida alguma o ponto alto do disco; na primeira, Kevin aposta novamente em uma pegada mais house, enquanto se declara para a sua esposa em meio aos versos; mais do que isso, fala sobre como é não se sentir mais sozinho, quase uma antítese do que se via em seus outros trabalhos. Já em “Borderline”, single que ganhou uma nova versão para The Slow Rush, vemos todo o potencial de Kevin como produtor, com arranjos de baixos que casam perfeitamente com os sintetizadores e geram um clima dançante e ao mesmo tempo leve.

“Posthumous Forgiveness”, mesmo dividida em duas partes e com uma melodia intimista, é grandiosa, remetendo ao prog rock dos anos 70. Em meio à isso, temos provavelmente a melhor composição já feita por Parker; nela, ele narra o seu comportamento em relação ao falecimento do seu pai, se arrependendo de não ter tido mais momentos com ele, e relembrando os melhores instantes dos dois juntos. “Breathe Deeper” vem em seguida, com forte influência de The Neptunes/Pharrell Williams , combinando o R&B, o house, e o rock psicodélico.

À partir daí, vem uma sequência de altos e baixos, que passam a sensação de que o novo disco poderia ser muito melhor trabalhado. Há duas ótimas faixas: “On Track” e “Lost In Yesterday”, que também unem o que já deu certo e algumas novidades sonoras em suas estruturas. Entretanto, o restante das músicas soam mais como uma versão Deluxe de Currents: a união daquele pop pegajoso e de elementos do rock dos anos 70, que ficou marcado no registro lançado há cinco anos. Além disso, algumas canções, como a de encerramento, são desnecessariamente longas, fazendo a experiência do ouvinte ser cansativa.

De um modo geral, ao falar sobre passado e futuro, Kevin Parker em alguns momentos foca muito mais em velhas manias já encontradas nos seus outros trabalhos, fazendo com que o registro seja até certo ponto esquecível para quem queria novidades daquele que é considerado um dos músicos mais prestigiados da atualidade. Entretanto, se você gosta da veia mais pop e cheia de excessos do Tame Impala, a viagem no tempo de The Slow Rush é um prato cheio.

Tame Impala – The Slow Rush

Lançamento: 14 de Fevereiro de 2020
Gravadora: Modular
Gênero: Rock
Produção: Kevin Parker

Faixas:
01. One More Year
02. Instant Destiny
03. Borderline
04. Posthumous Forgiveness
05. Breathe Deeper
06. Tomorrow’s Dust
07. On Track
08. Lost In Yesterday
09. Is It True
10. It Might Be Time
11. Glimmer
12. One More Hour

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