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Review: Thom Yorke – ANIMA

Eu sempre achei Thom Yorke um dos artistas com maior capacidade pra falar sobre questões mundanas e contemporâneas. Desde o (primeiro) megassucesso do Radiohead, OK Computer (1997), o cantor pode ser considerado a voz de uma geração que, quanto mais avança, menos sabe pra onde ir. Em ANIMA, seu terceiro trabalho solo, Yorke novamente aborda esse tipo de problema e também traz consigo o panorama atual da sociedade, em meio a um caos sonoro planejado e produzido para tocar o ouvinte.

ANIMA é um projeto audiovisual que, em relação ao disco, mais uma vez conta com a dobradinha Thom Yorke/Nigel Godrich, produtor considerado “o sexto membro do Radiohead”, já que ele colabora com a banda (e com os projetos solo do vocalista) desde a década de 90. A maioria das faixas já haviam sido idealizadas por Thom há alguns anos e, por isso, o processo de produção foi bastante rápido e tranquilo para o cantor. Em ANIMA, ele imerge ainda mais na música eletrônica, com sons que remetem a clássicos como Kraftwerk e Aphex Twin.

O conceito de ANIMA se baseia numa obsessão recente do vocalista do Radiohead por sonhos e particularmente pela teoria proposta pelo psiquiatra/psicoterapeuta Carl Jung; nela, o “anima” seria um aspecto inconsciente do individuo, um “não-eu” (algo que também pode ser entendido como a nossa alma), habitado no mais profundo estágio da psique dos homens. Segundo essa teoria, o homem deve saber integrar essa personalidade à sua; essa concepção fica clara no curta-metragem dirigido por Paul Thomas Anderson, produzido especialmente para o projeto; nele, Thom persegue uma mulher em meio a diversos cenários que parecem o seu próprio subconsciente, no que aparenta ser um sonho. Esse tipo de reflexão acompanha todo o álbum e ajuda a entender a sensibilidade do disco.

Nigel Godrich
Novamente a parceria Thom Yorke/Nigel Godrich (foto) deu certo (Imagem: Getty)

ANIMA é sobre questões existenciais

O grande mérito de Yorke é ser bastante profundo nesses questionamentos; o músico utiliza de inúmeras camadas de sintetizadores, e começa falando sobre a sociedade e como nossa forma de vida desencadeia um padrão de comportamento; em “Traffic”, a voz ecoada e escondida na melodia  aponta os nossos valores atuais: “Festeje com um zumbi rico/O crime paga, ela fica”. Na faixa seguinte, “Last I Heard (…He Was Circling the Drain)”, música baseada em um sonho do cantor, entendemos porquê Thom aborda o conceito de anima: estamos impossibilitados de alcançar essa personalidade por estarmos dentro de uma rotina (“Nadando através da sarjeta/Absorvidos pela cidade…/Humanos do tamanho de ratos”).

As músicas seguintes explicitam a razão dessa impossibilidade: o ser humano está mais ansioso e insatisfeito. Na belíssima “Dawn Chorus”, esse sentimento é nítido, com os versos “Eu acho que perdi algo/Mas eu não tenho certeza do que/No meio do turbilhão/O vento apanhou” em meio aos arranjos e batidas melancólicas. A techno “The Axe” aponta a responsabilidade da tecnologia nesse tema, com uma pergunta à esses avanços: “E onde está o amor que você me prometeu?”.

O álbum encerra essa narrativa com a sequência “Impossible Knots”/”Runwayaway”; aqui, Yorke discute o ponto de caminharmos sem rumo, longe da autodescoberta (“Eu estou indo na direção errada/Eu não posso fazer a grande conexão”). Aliás, a faixa de encerramento é o ponto fraco da obra, já que ela foge um pouco da estética eletrônica construída ao longo dos 47 minutos do disco.

Uma obra reflexiva

Como um sonho, ANIMA é abstrato, uma obra sensorial, e isso de forma alguma é um demérito: é uma demonstração de quão grande é o dom de Thom Yorke pra falar muito dizendo pouco. Ademais, o álbum exibe outra vez o talento do cantor pra explorar a sonoridade eletrônica, expandindo seus limites enquanto artista, e é muito provável que você não acabe sentindo falta de acordes e distorções de guitarra ou de outros instrumentos. Yorke, como gênio que é, consegue com uma visão bastante própria pintar um retrato fiel da sociedade atual, fazendo de ANIMA um dos registros mais sensíveis e bonitos de 2019.

Thom Yorke – ANIMA

Lançamento: 27 de Junho de 2019
Gravadora: XL Recordings
Gênero: Eletrônica
Produção: Nigel Godrich

Faixas:
01. Traffic
02. Last I Heard (…He Was Circling the Drain)
03. Twist
04. Dawn Chorus
05. I Am a Very Rude Person
06. Not the News
07. The Axe
08. Impossible Knots
09. Runwayaway

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