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Review: Arcade Fire – Funeral

Em 2019, um dos melhores álbuns de estreia das últimas décadas completa quinze anos desde o seu lançamento. Funeral, do Arcade Fire, foi e ainda é uma referência dentro do rock contemporâneo; seus arranjos inspirados na música clássica orquestral e suas letras com temáticas sobre a vida nos dias atuais até hoje emocionam. Particularmente falando, é um disco essencial, que transformou a cena indie e alterou o significado desse rótulo. Desde então, bandas menores não se restringem a pequenos holofotes e festivais; isso se deve em grande parte ao Arcade Fire.

O primeiro EP e as particularidades sonoras de Funeral

O primeiro trabalho de estúdio da banda ocorreu em 2003, com um EP homônimo de sete faixas. Nenhuma das músicas apareceria em Funeral, mas davam uma boa dimensão do tipo de som que o coletivo entregaria; um lo-fi brutal, com uma chuva de instrumentos que transformava o ambiente sonoro em algo bastante experimental. Já era possível enxergar a emoção que eles tentavam passar, seja pelo vocal trêmulo de Win Butler, ou pelas melodias grandiosas, que lembravam as grandes canções de arena.

Após esse EP, o coletivo surpreendentemente assinou com a Merge Records, que não estava sendo cogitada pra ser o selo deles até então; um dos motivos pra isso foi revelado mais tarde por Win: a Merge foi responsável por lançar o histórico In the Aeroplane Over the Sea (1998), do Neutral Milk Hotel.

Arcade Fire show
O vocal de Win Butler é um dos vários destaques de Funeral (Creditos: Blitz.pt)

De certa forma, o próprio Arcade Fire pode ser considerado um herdeiro de In the Aeroplane Over the Sea; como no clássico, as composições do grupo de Montreal beiram o surrealismo, e em suas entrelinhas falam de forma específica com cada ouvinte. Os gritos e a aposta em instrumentos não convencionais em bandas de rock, como o acordeão e o órgão, é outro ponto em comum dos dois discos. Apesar disso, Funeral tem outras características que só pertencem ao álbum, como os coros que despertam diversas impressões sem necessariamente dizer uma palavra concreta.

Um ato sobre a vida e que encontra beleza na perda

Além das barreiras musicais, o que faz do registro especial é a vocação para falar sobre uma sociedade movida pelo instantâneo. Canções sobre a existência, a morte e a perda da inocência constroem  toda a sensibilidade deste trabalho. A carga dramática é ainda maior por conta do que o Arcade Fire superou durante o processo de produção; diversos parentes dos componentes da banda morreram na época da gravação (a avó de Régine Chassagne, o avô de Win e do seu irmão Will Butler, e também as tias de Richard Reed Parry). O mais interessante é que apesar do título do álbum (que foi definido por conta desses fatos), e esse melancolia que eventualmente tomou conta, Funeral nos ensina a encarar os problemas com esperança.

A primeira e a última faixa do disco condensam esses elementos; enquanto “Neighborhood #1 (Tunnels)” pinta um retrato animador e até certo ponto utópico da juventude, “In the Backseat” é um encerramento duro sobre a inevitabilidade da vida adulta, comparando os anos inaugurais a um passeio de carro (“Eu gosto da paz/No banco de trás/Eu não tenho que dirigir/Eu não tenho que falar”). Ambas exibem duas facetas do Arcade Fire: enquanto a primeira é um hino frenético, com diversos ruídos e inúmeras camadas sonoras, a música de encerramento é delicada e uma das baladas de Funeral.

“Neighborhood #2 (Laika)”, “Une Année Sans Lumiere” e “Neighborhood #3 (Power Out)” conversam entre si e questionam a alienação que vem de carona com a maturidade. Em Laika, a analogia inteligente entre o cão soviético lançado ao espaço sem esperanças de retorno ao planeta, e também a possível referência a Alexander Supertramp, jovem de classe media que se afastou de todos por raiva da civilização,  revelam a sensação de não-escapatória nesse destino limitado em que a modernidade nos colocou; ao mesmo tempo, os belos arranjos dos violinos de Owen Pallett e Sarah Neufeld empolgam.

“Neighborhood #4 (7 Kettles)” e “Crown of Love” desaceleram o ritmo e são mais intimistas, com camadas menos densas mas igualmente tocantes. Há espaço também pra momentos quase autobiográficos, como em “Haiti”; nessa faixa, Régine faz um tributo às suas origens, já que sua família é da ilha caribenha e teve que ir embora para o Canadá por conta do regime ditatorial de François Duvalier (Papa Doc). Apesar disso, é uma canção alegre, uma demonstração de carinho por uma infância que Chassagne nunca viveu.

“Wake Up” se tornou o maior sucesso comercial do álbum, e não a toa, a música que encerra todos os shows do Arcade Fire, mesmo com mais quatro LPs lançados após Funeral. Ela é o exemplo mais amplo do que o coletivo é capaz de fazer: riffs e ganchos cativantes com um grande coro no refrão, que funcionam como um ato de catarse possível de enxergar na própria banda. “Rebellion (Lies)” segue a mesma linha, avisando que é necessário abrir os olhos da alma pra fugir da apatia (“Toda vez que você fecha os seus olhos/Mentiras, Mentiras!”).

Funeral é importante tanto para o mainstream quanto para o indie

É fácil pensar em quem já foi influenciado por esse som colossal de Funeral: The Lumineers, Of Monsters and Men,  e até mesmo gigantes da industria como o Coldplay e o U2. Entretanto, nenhum desses conseguiu dominar essa fórmula como o Arcade Fire, que até hoje leva o público ao êxtase com esse formato (isso foi bem explicitado no texto do Audiograma sobre o concerto mais recente deles no Brasil).

Em uma época onde o Garage Rock e o Post-Punk Revival dominavam, esse registro se destacou por ser único. Analisando toda a discografia do Arcade Fire, ele provavelmente é o álbum que foi pior produzido; porém, por meio de seus brados e sons rústicos, é o  mais sincero com o receptor, seja esse você ou David Bowie (em 2004 o cantor elegeu o trabalho como o seu disco favorito do ano). Se aqueles que dizem que o rock morreu estiverem certos, saiba que Funeral foi um de seus últimos suspiros.

Arcade Fire – Funeral

Lançamento: 14 de Setembro de 2004
Gravadora: Merge
Gênero: Rock Alternativo, Indie
Produção: Arcade Fire

Faixas:
01. Neighborhood #1 (Tunnels)
02. Neighborhood #2 (Laika)
03. Une Année Sans Lumiere
04. Neighborhood #3 (Power Out)
05. Neighborhood #4 (7 Kettles)
06. Crown of Love
07. Wake Up
08. Haiti
09. Rebellion (Lies)
10. In the Backseat

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