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Além do Som: As rainhas do pop e as desvantagens na era do streaming

Não é raro ver os fãs das gerações mais novas de cantoras criticarem o desempenho daquelas consideradas rainhas do pop nos charts. Entretanto, algumas coisas precisam ser esclarecidas e, para isso, vou pegar algumas artistas veteranas consideradas lendas da música pop e que já não possuem um grande desempenho nas paradas musicais nos dias de hoje para explicar o que acontece.

Nos anos 80 e 90, auge das vendas de álbuns, seja através de vinis, cds ou fitas cassette, as pessoas que consumiam música costumavam pagar por elas. Claro que isso não inclui a famosa fita K7 que ficava no som o dia inteiro para gravar uma versão cortada do novo single das cantoras que estreava na rádio ou quando um videoclipe passava na TV e gravávamos no VHS para assistir quantas vezes quiséssemos. Com certeza você que nasceu após os anos 2000 não vai entender muito bem o que estou falando, mas os demais vão se identificar. Não existia YouTube. A audiência da televisão era muito maior, pois se você queria ver alguma performance de seus artistas favoritos era uma chance única.

Com o passar do tempo, estes artistas que vendiam milhões de álbuns como Madonna, Mariah Carey, Britney Spears, até mesmo Christina Aguilera acabaram perdendo a evidência nas rádios que optaram por tocar em grande parte da programação os singles de artistas mais novas como Taylor Swift, Katy Perry, Rihanna, Selena Gomez, Miley Cyrus, Demi Lovato e Ariana Grande, entre outras. E não se iluda: para tocar na rádio, a gravadora sempre pagou. No entanto, o que é novo geralmente costuma ganhar uma prioridade maior e as veteranas ficam em segunda mão. Assim como Madonna defende, envelhecer trabalhando com música pop, no universo feminino, é algo desafiador. Um grande discurso sobre este tema você pode ver abaixo, quando a Rainha do Pop ganhou o prêmio de Mulher do Ano pela Billboard:

Voltando ao nosso tema, vale lembrar que com o surgimento do YouTube, Spotify e Deezer, entre outras plataformas de streaming, os fãs desta nova geração de cantoras organizam campanhas para passar horas assistindo os clipes de suas artistas favoritas para que tenham um bom desempenho nos charts, uma vez que este tipo de reprodução de conteúdo passou a ter uma relevância muito grande nas listas das faixas com maior êxito, principalmente nos Estados Unidos.

Um grande exemplo é a Rihanna, que tem um alcance muito grande em reproduções online de suas músicas e acaba se sobressaindo nos charts por causa disso. Outro bom exemplo é o Fifth Harmony, que ganhou um certificado de platina nos Estados Unidos – equivalente a um milhão de cópias vendidas do excelente álbum 24/7, mas em pure sales (pessoas que pagaram pelo disco) não passaram de 90 mil cópias no país.

Mas não pense que os artistas veteranos não tiveram regalias com os fãs das gerações passadas. Era dia e noite votando no VMA, pedindo músicas nas rádios e votando em clipes na MTV. Elas ganharam muitos prêmios, se tornaram consagradas, e hoje não costumam ganhar os troféus mais importantes. E por que isso acontece? Simplesmente porque a fanbase cresceu e existem outras prioridades nas vidas dos fãs. É algo natural que vai acontecer com qualquer uma das estrelas que estão no auge hoje. A forma de conquistar um número um também era diferente e baseada em vendas de singles + reprodução nas rádios.

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Vale comentar que, mesmo que o desempenho das veteranas com os novos álbuns e singles não sejam grandiosos, elas seguem faturando e muito com toda a discografia lançada e os fãs seguem esgotando ingressos dos seus shows. É como se a parte mais importante destas artistas fossem as turnês, pois charts não é algo que elas precisam se preocupar já que vão ter sempre aquele espaço ali na música para faturar com suas apresentações milionárias. A Beyoncé, apesar de vender quase 3 milhões de cópias mundiais com o seu álbum visual Lemonade, não conquista um número um na principal parada da Billboard desde “Single Ladies”, em 2008. O sucesso da cantora é gigantesco e ela também entra na lista de turnês mais lucrativas sempre. Então fica o questionamento, o número um no chart é realmente fundamental para longevidade na carreira?

Ainda assim, é fácil encontrar fãs das veteranas do pop se perguntando “ué, porque ela não faz uma divulgação massiva na TV para obter os singles em primeiro lugar e vender um milhão de cópias?”. A resposta é: elas já são consagradas e não precisam investir tempo e nem dinheiro nisso. O espaço delas na música já foi conquistado.

A dica para a nova geração é não menosprezar o legado do pop que abriu as portas para toda essa galerinha boa que ouvimos hoje nas rádios. Daqui a alguns anos serão outras dominando as paradas, pois o auge é algo passageiro.